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Cypherpunks e a Pré-História da Bitcoin – Parte 3

Temos estado a acompanhar o caminho que levou à criação da Bitcoin. Já conhecemos o prof. David Chaum responsável pelo primeiro dinheiro electrónico – o eCash – e por alimentar muitos jovens nos temas da privacidade digital e online; e o Dr. Adam Back que criou um sistema de “selos para emails” para prevenir o spam – o Hashcash – que tinha por base o sistema de Proof-Of-Work, que se viria a tornar no motor que da Bitcoin e permite a emissão de moeda de forma controlada e planeada.

Neste artigo vamos conhecer Wei Dai, um Cypherpunk muito dedicado à causa da privacidade que viria a criar um sistema muito semelhante à Bitcoin. Foi inicialmente inspirado por um dos fundadores do movimento da cripto-anarquia, Tim May, pois, segundo o próprio: “ao contrário das comunidades associadas com a palavra ‘anarquia’, numa cripto-anarquia o governo não é destruído temporariamente mas permanentemente proibido e permanentemente desnecessário. É uma comunidade onde a ameaça da violência é impotente porque a violência é impossível. E a violência é impossível porque os participantes não podem ser ligados aos seus verdadeiros nomes ou localizações físicas.”

Wei Dai é um crente no ideal da privacidade, de tal forma que se lhe conhecem poucos detalhes pessoais e declara que todas as fotografias na internet que se dizem ser dele são, na verdade, de outras pessoas chamadas Wei Dai. Para compensar a escassez de detalhes pessoais, podemos consultar e ler o seu trabalho extenso e ideias abundantes. Criou e mantém a Crypto++ uma base de dados para algortimos criptográficos na linguagem de programação C++. Dai é um prolífico publicador em fórums como o LessWrong, onde discute sobre temas como inteligência artificial, ética e outros. É-lhe reconhecido o mérito das suas ideias e é convidado habitual para conferências no MIRI – Instituto Investigação sobre Intelingência Artificial.

Mas os seus interesses por filosofia e política datam já da década de 1990 quando descobriu a cripto-anarquia e se alistou na Cryptography Mailing List – o sítio onde desenvolveria ainda mais a sua luta pela privacidade. Além desse tema as suas publicações incidiam em temas como sistemas de reputações digitais, Teoria de Jogos e sistemas de dinheiro eletrónico anónimos.

O seu fascínio pela privacidade levou-o a ponderar como poderia operar uma comunidade cripto-anárquica. Dai definia comunidade como a cooperação eficiente dos seus participantes. Para alcançar isso era necessário um meio de troca (dinheiro) e uma forma de assegurar que os contratos estabelecidos seriam cumpridos. Serviços que tradicionalmente são providenciados por um governo ou agências governamentais. Ora, uma comunidade anárquica tem por objetivo a eliminação do governo central, portanto seriam necessárias alternativas que providenciassem estes serviços. Para contribuir para a criação de tal comunidade Dai, criou um protocolo que disponibilizava estes serviços primordiais por e para entidades não rastreáveis.

B-money

Em Novembro de 1998, Dai anunciou o seu protocolo – a que chamou b-money – na Cryptography Mailing List. Nessa apresentação explicou que o seu protocolo impunha que cada participante mantivessem uma cópia do mesmo livro de registos contabilístico. Sempre que existisse uma transação todos os intervenientes actualizariam a sua cópia. Para manter a privacidade dos utilizadores esses livros de registos guardariam não os nomes reais mas as chaves públicas às quais seriam associadas as quantias que correspondiam a cada interveniente.

Esta solução descentralizada prevenia que qualquer entidade pudesse bloquear transações bem como permitia a privacidade dos utilizadores.

As chaves públicas serviriam como pseudónimos para que todos os utilizadores mantivessem as suas identidades privadas. Os utilizadores teriam um par chave-privada/chave-publica que funcionariam como endereço e assinatura na rede, respectivamente. Através dessas chaves públicas os utilizadores poderiam endereçar unidades deste dinheiro sendo que as assinavam com as chaves privadas.

Como se pode ver esta solução é muito semelhante à proposta de Satoshi Nakamoto para a Bitcoin.

B-money 2.0

Na sua proposta Dai descreveu ainda a forma de criação de dinheiro, a transferência de dinheiro e a resolução de conflitos contratuais. No entanto, acreditava que o seu protocolo não era possível de se tornar uma aplicação prática, pois não prevenia o problema do gasto duplo, e, por isso, apresentou uma segunda versão do seu protocolo b-money.

Nessa segunda versão, existiriam servidores que eram responsáveis por manter os livros de registos actualizados. Os utilizadores teriam que verificar com os servidores se as transações eram legítimas, se não fossem poderiam rejeitá-las.

Qualquer pessoa poderia criar um servidor. Bastar-lhe-ia fazer um depósito de uma determinada quantia de dinheiro que seria utilizado num sistema de penalizações ou recompensas. Este sistema também é semelhante àquilo que hoje conhecemos como Proof-of-Stake, e que é utilizado em vários criptoativos.

A Grande Diferença

No entanto, a grande diferença entre o b-money e a Bitcoin seria a política monetária. A proposta do b-money era criar uma moeda com um valor fixo. Por exemplo, 100 unidades de b-money seriam associadas a um cesto de bens e o valor dessas 100 unidades flutuaria de acordo com o preço desse conjunto. Isto permitia que o b-money tivesse um valor estável. A Bitcoin como bem sabemos não alcançou esta estabilidade e isso é algo que Dai pensa ter podido evitar.

Dai não resolveu todos os problemas do b-money por ter perdido o encanto com a causa cripto-anárquica – pensou que tal sistema não fosse além de alguns Cypherpunks devotos. Mas a sua criação não seria esquecida e tornou-se na primeira referência do paper de Satoshi. O criador da Bitcoin contactou Dai para discutir a sua proposta, depois de Adam Back lhe ter indicado as semelhanças dos projetos. Dai nunca chegou a responder a Satoshi e considera que a Bitcoin falhou em relação à sua política monetária, por criar grande volatidade no preço tornando-se assim muito difícil que os seus utilizadores a possam realmente usar no dia-a-dia.

Dai acredita que poderia ter convencido Satoshi a alterar esta política de “oferta fixa de dinheiro”, que acredita ser perigosa para a Bitcoin e o espaço das criptomoedas. Por se ter tornado tão dominante neste espaço, se a Bitcoin falhar poderá significar o falhanço de todas as criptomoedas alternativas. Dai comentou num artigo do fórum LessWrong: “Talvez isto seja parcialmente minha culpa, porque quando Satoshi me pediu a opinião sobre a versão inicial do seu paper eu nunca lhe respondi.”

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