Tim May foi o fundador dos Cypherpunks e do Movimento da Cripto-Anaquia. Para atrair mais seguidores para a sua causa criou e partilhou, no final dos anos 80, em conferências de criptografia e hacking o Manifesto Cripto-Anárquico. Nele May apresentava a criptografia como a solução para manter a privacidade num mundo que estava a começar a tornar-se digital. “A informática está à beira de permitir que indivíduos ou grupos possam comunicar e interagir de maneira totalmente anónima.”
Apesar de a tecnologia para fazer isso acontecer existir há mais de uma década na altura, os próximos anos e o aumento do poder computacional acessível a qualquer pessoa iriam tornar possível a implementação destas ideias. A aplicação desta revolução social e económica “iria alterar a natureza das regulamentações governamentais, a capacidade de aplicar impostos e controlar interações económicas e até alterar a natureza da confiança e reputação.” May acreditava que a disrupção que os métodos criptológicos poderiam fazer nas transações económicas dos governos e empresas seria comparável às mudanças da estrutura na cadeia de poder causadas pela invenção da imprensa. E previa que, combinado com a informática e a internet, a criptografia iria criar mercados para tudo o que se pudesse pôr em palavras ou imagens, fossem esses produtos bons ou maus. No final do manifesto listava as preocupações nucleares da cripto anarquia: encriptação, redes anónimas, colapso dos governos e dinheiro digital.
Nick Szabo tinha-se alistado aos Cypherpunks por partilhar estes ideiais. Contribuía assiduamente para a Mailing List e desenvolveu algumas ferramentas para tornar essa visão realidade. Inspirado pelo economista liberal Friedrich Hayek, Szabo percebeu que a base de uma sociedade humana é largamente baseada num conjunto de princípios base como a propriedade ou os contratos, tradicionalmente impostos e regulados pelo estado. Ora, se o objectivo era eliminar o estado teria que se criar uma alternativa que pudesse recriar isto online. Foi assim, que chegou à criação pela qual é mais conhecido: os contratos inteligentes. Seriam estes protocolos que estabeleceriam e verificariam a execução de um contrato sem a necessidade de um interveniente externo. Na visão de Szabo, depositar a confiança em terceiros era uma falha de segurança.

Dinheiro Digital
Mas Szabo iria criar também a sua versão de outra ferramenta fulcral para os Cypherpunks – o dinheiro digital. Szabo debruçou-se sobre este tema a fundo e escreveu um ensaio sobre a importância e as características do dinheiro em sociedades poucos desenvolvidas. No seu ensaio, “Shelling Out: the Origins of Money”, percebeu que os humanos em várias culturas tinham a tendência para juntar objetos coleccionáveis, escassos, transportáveis e identificáveis, muitas vezes para fazerem peças de joalharia. Estes objetos levaram os seres humanos a cooperar entre si utilizando-os como dinheiro para realizar trocas, compras e vendas. Durante a sua pesquisa percebeu que características teria que ter a forma de dinheiro digital que se propusesse a criar para que pudesse ser bem sucedida.
Szabo foi um pioneiro no comércio online e atuou na área como consultor. Uma das empresas em que trabalhou foi a DigiCash de David Chaum, que tinha criado a primeira forma de dinheiro digital – o eCash. Aqui descobriu mais uma característica importante que queria incutir na sua solução. A DigiCash era uma empresa centralizada e Szabo percebeu que tanto ele como outros dentro da empresa poderiam alterar balanços nas contas de cada pessoa a seu bel-prazer. A solução teria que ser descentralizada.
Por esta altura, Szabo tinha percebido que as características que o seu dinheiro digital teria que ter seriam muito semelhantes aos metais preciosos como o ouro. Por isso, quis criar o ouro digital. Criou o Bit Gold.
Bit Gold
Em 1998, Szabo criou a sua versão de dinheiro digital, mas só a descreveria publicamente em 2005. Bebeu inspiração de formas de dinheiro digital anteriores.
Do Hashcash de Adam Back, aproveitou o sistema Proof-of-Work para criar a escassez digital. Através dele, teriam que ser gastos recursos físicos, neste caso poder computacional, para a criação de uma moeda.
Do b-money de Wei Dai, com quem Szabo trocava emails regularmente, retirou a ideia de distribuir a base de dados que mantinha os registos de quem possuía que moedas por vários “servidores” voluntários.
O aumento da capacidade computacional dos sistemas disponíveis trazia um problema para o Bit Gold, pois poderia criar uma super-inflação que o tornava demasiado numeroso para ser valioso. Para resolver este problema Szabo decidiu que as hashes criadas teriam que ser marcadas com a sua data de criação. Quanto mais antiga fosse a data, mais valiosa seria essa hash. Isto criava uma barreira à fungibilidade (quaisquer dois itens iguais devem o mesmo – duas moedas de 1 euro valem o mesmo). A solução para suplantar este obstáculo seria criar uma segunda camada que funcionaria como um banco, um que fosse transparente com registos públicos. Estes bancos agregariam um número de hashes que teriam o mesmo valor independentemente da data de criação, e à semelhança do eCash, emitiriam notas digitais privadas e anónimas.
O Bit Gold criava assim uma proposta para um “padrão ouro” da era digital.
Em 2008, Szabo tentou pela primeira vez juntar uma equipa para implementar um teste do Bit Gold. Não teve respostas. No entanto, a sua solução para o dinheiro digital, foi uma inspiração para a criação da Bitcoin. Satoshi Nakamoto escreveu que a sua invenção era “uma implementação das propostas b-money de Wei Dai […] nos Cypherpunks […] em 1998 e Bitgold de Nick Szabo”, no entanto, não referiu Nick Szabo e o seu Bit Gold no white paper da Bitcoin. Há quem veja este facto como um sinal importante para indicar que Nick Szabo é na verdade Satoshi Nakamoto. No entanto existem diferenças relevantes, especialmente no modelo monetário que usa a Bitcoin – a inflação da Bitcoin está definida desde o início e não será alterada pelo aumento da capacidade computacional dos seus utilizadores. Em vez disso, a dificuldade na criação de blocos é ajustada conforme o poder total da rede para manter essa taxa fixa de emissão de moeda. O próprio Nick Szabo reconhece: “não consigo decidir se é uma característica ou um bug mas torna-a mais simples.”
Este artigo encerra a série sobre a Pré-História da Bitcoin, onde estudámos as soluções anteriores à Bitcoin para o problema do dinheiro digital. São baseados na série The Genesis Files escrita por Aaron van Wirdum para a Bitcoin Magazine.