Nos últimos artigos, temos visto que o segundo maior criptoativo do mundo vai passar por uma transformação importante na forma como funciona a sua rede. A mudança no algoritmo de consenso para a Prova de Participação (Proof-of-Stake – PoS) tem como objetivo tornar a rede capaz de processar mais transações e mais eficiente ao nível do consumo de energia. No entanto, serão afetados todos os aspetos da rede desde a forma como são criados os blocos para adicionar à cadeia ou a forma como são atribuídas as recompensas de validação. Mas de que forma será afetado o ether (ETH), o criptoativo nativo da rede?
Este novo algoritmo para a cadeia do Ethereum gira em torno de um conceito conhecido como Staking (Participação). Este staking é a participação que cada validador entrega à rede e pela qual é recompensado. Ou seja, os intervenientes que querem tornar a rede mais segura entregam uma quantia predefinida do seu ativo à rede e recebem recompensas na forma de uma percentagem desse ativo. No caso do Ethereum 2.0 o ativo será ETH. O lançamento desta nova cadeia é o culminar de 6 anos de trabalho e o conquistar da visão inicial dos fundadores do projeto.
Vimos no artigo anterior quais as fases para o lançamento desta nova forma de funcionamento do Ethereum. Na fase 0 será lançada uma nova cadeia chamada “Beacon Chain” que funciona como a espinha dorsal do novo sistema. A fase 1 inicia um processo conhecido como sharding (fragmentação) que consiste em criar 64 cadeias de blocos que formarão o sistema e “reportam” à beacon chain o estado de cada endereço em si próprias. A fase 2 representa a implementação de DApps e início de utilização de contratos inteligentes. Na última fase, a 3, está destinada aos últimos retoques e melhorias.
Para que se inicie a primeira fase é necessário juntar um montante suficientemente grande de Ethereum, acima do qual se crê tornar-se pouco rentável para possíveis atacantes tentar tomar o domínio da rede. Esta é uma medida de segurança definida pela equipa de desenvolvimento para protege a rede, bem como ativos, aplicações e utilizadores que dependem dela. Um utilizador tem que pôr em jogo 32 ETH para se tornar um nó validador. E são necessários 16 384 nós para lançar a nova rede. Assim, o limite fica definido nos 524 288 ETH. À hora que escrevo este artigo o valor de ETH está nos 350 dólares, o que significa que têm que estar entregues à rede mais de 180 milhões de dólares. E cada validador terá entregue acima dos 11 000 dólares para manter a rede mais segura. Conseguir este montante será um primeiro sinal de que a comunidade acredita nesta mudança. Existem algumas redes utilizadas (beaconscan.com) para testar o código que já conseguiram reunir mais de 43 000 validadores, no entanto o ETH utilizado não é ETH real. Por isso, a expectativa para o momento verdadeiro continua a crescer.
A rede está a ser construída com incentivos para atrair os validadores necessários para o seu arranque. Estima-se que os validadores iniciais possam receber cerca de 20% por ano sobre o ETH que entregarem à rede. Este valor é ajustável consoante o montante total presente na rede para que ela se mantenha segura. À medida que existam mais ETH a trabalhar para a rede, as recompensas diminuem. Se o número de validadores diminuir, as recompensas aumentam atraindo assim mais utilizadores a trabalharem para a rede. Quando o montante de ETH na rede rondar os 10 milhões é expectável que os validadores recebam cerca de 5% sobre a sua participação na rede.
Até à fase 2, em que os dois sistemas são integrados e se transformam em apenas um, haverá um aumento na criação de ETH. Isto acontecerá porque os dois sistemas estarão a criar os seus tokens independentemente. O ethereum prova-de-trabalho continua a recompensar os seus mineradores pelo trabalho feito e o sistema com prova de participação atribui as recompensas aos validadores selecionados para criar os blocos. Este aumento na oferta de ETH pode causar uma queda no valor do ativo. Por outro lado, sendo um sinal de que a mudança para o novo sistema está a correr bem pode ser entendido como um reforço dos indicadores fundamentais do ETH e causar a subida no preço. O mercado dos criptoativos é extremamente recente e, ainda, altamente especulativo – mesmo quando falamos dos maiores ativos no segmento. Por isso, podemos e devemos tentar perceber o que pode acontecer, mas este é um evento sem precedentes uma tecnologia de ponta. Fazer previsões para este período é um jogo muito arriscado.
O que conseguimos perceber é que depois dessa fase em que os dois sistemas se uniram a oferta será reduzida bruscamente. Os cálculos que temos apontam para uma taxa de inflação que varia entre os 0,10% e 0,45%, dependendo do número de validadores. Atualmente, com o sistema de prova-de-trabalho o Ethereum tem uma taxa de inflação de 4,5%. Ou seja, a taxa de inflação será reduzida em 10 vezes! Portanto, apesar de haver um aumento temporário na criação de novos tokens, a emissão será reduzida drasticamente com a ativação do novo sistema.
Como referido, o objetivo desta mudança importante é tornar a rede capaz de suportar um número muito maior de transações. Ora, se a rede for realmente capaz de o fazer tornar-se-á mais apelativa para programadores e aplicações a utilizarem dando início àquilo que a comunidade espera ser a nova fase da Internet descentralizada. Se tudo isto se confirmar assistiremos ao emergir de novas soluções online que utilizarão esta plataforma como base. Assim sendo, a procura pelo ativo base deverá sofrer um aumento considerável. Se a isto aliarmos a diminuição da oferta referida acima, podemos esperar que o valor do ETH esteja destinado a subir consideravelmente.
No entanto, realço que tudo o que aqui está escrito é a minha opinião pessoal e não uma recomendação de investimento. Critica tudo o que leres ou ouvires sobre investimentos e percebe de que forma essa recomendação se aplica aos teus investimentos.