Este artigo é o segundo de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.
Ao longo da história as comunidades usaram diferentes formas de dinheiro. Neste artigo vamos perceber o que levou a que esses objectos fossem escolhidos como dinheiro e porque razão deixaram de ser usados para esse fim.
No livro, Saifedean defende que a forma histórica de dinheiro que mais se assemelha à forma como funciona a Bitcoin são as pedras Rai. Estas pedras representavam o dinheiro na ilha Yap, na Micronésia durante muitos anos. Eram grandes discos de calcário com um furo no meio que os habitantes daquela ilha retiravam de ilhas vizinhas por não existir aquele material em Yap. A beleza e a sua raridade tornavam as pedras apetecíveis e por isso foram ganhando valor. Devido às limitações tecnológicas da comunidade, o processo de extrair as pedras e transporta-las até à ilha era bastante trabalhoso e moroso. As pedras podiam chegar a pesar toneladas o que obrigava a que fossem carregadas por grandes grupos de pessoas. Quando chegavam à ilha de Yap eram colocadas num local onde todos a pudessem ver. O proprietário daquela pedra poderia então usá-la como pagamento anunciando à comunidade que a posse da pedra tinha mudado de mãos. Ninguém poderia roubar a pedra pois todos sabiam a quem pertencia.

Os vários tamanhos das pedras forneciam alguma liquidez entre escalas. Apesar de não se movimentarem facilmente, as pedras ofereciam liquidez no espaço uma vez que a sua posse podia ser mudada entre qualquer habitante da ilha. A liquidez no tempo era garantida pelas propriedades da própria pedra e pelos esforços necessários para a extracção manual na pedreira e transporte a partir de ilhas vizinhas usando canoas. Devido a estes obstáculos não era possível criar mais pedras a uma velocidade que tirasse o valor àquelas que já existiam na ilha. Ou seja, o rácio stock-to-flow das pedras era muito alto. Por muito desejável que fosse obter mais deste material não era fácil consegui-lo. Esse era o caso até que David O’Keefe deu à costa em 1871.
O’Keefe viu uma oportunidade de fazer dinheiro com o óleo de coco que podia extrair daquela ilha, mas não conseguia convencer os locais a trabalharem com ele. Eles estavam felizes com a vida no seu paraíso tropical e não tinham forma de usar as formas de dinheiro que O’Keefe tinha para lhes oferecer. No entanto, usando as tecnologias da sua civilização mais avançada o estrangeiro poderia conseguir o que queira. O’Keefe arranjou explosivos e um barco grande o suficiente para transportar pedras para a ilha de Yap e oferecê-las em troca do trabalho dos locais. A primeira reacção não foi a que esperava: os aldeões não estavam receptivos às suas pedras e o chefe da comunidade proibiu que se trabalhasse para O’Keefe decretando que as suas pedras não tinham valor por terem sido obtidas demasiado facilmente. No entanto, havia na ilha quem discordasse deste decreto e aceitasse as pedras do estrangeiro. Isto criou conflitos na ilha, uma abundância das pedras e a consequente perda de valor das mesmas. Por fim, as pedras Rai perderam a sua função como dinheiro.
As pedras Rai são um exemplo de uma comunidade específica que viu a sua forma de dinheiro ser desvalorizada quando surgiram tecnologias que permitiram extrair em larga escala material que era utilizado como dinheiro. Mas quase todos os objectos que fomos utilizando como dinheiro ao longo da história sofreram este fim com consequências nefastas para os povos que os utilizavam como reserva de valor.

As contas de vidro eram utilizadas como dinheiro em África, por serem dificeis de criar com as tecnologias desenvolvidas naquela região do globo. Quando os povos europeus começaram a colonizar aqueles territórios perceberam que podiam trocar os recursos naturais e valiosos que lá existiam por contas de vidro que eram fáceis de produzir nas suas terras de origem. Como neste caso a população que utilizava esta forma de dinheiro era muito maior que a da ilha de Yap, o processo levou séculos durante os quais os povos africanos perderam o valor que tinham e muitos perderam a liberdade. Os europeus enchiam os barcos destas contas que custavam pouco a fabricar e usavam-nas para comprar escravos. Ficaram conhecidas como as “contas de escravo“
A desvalorização do dinheiro é um processo que causa dor e dificuldades àqueles que têm a sua riqueza lá guardada. No caso da ilha de Yap, o processo foi rápido e criou alguns conflitos na ilha, mas os seus habitantes adoptaram uma nova forma de dinheiro e puderam adaptar-se. Um processo longo e demorado, como o que aconteceu em África, tem consequências trágicas para aquelas povoações e, neste caso, para as relações entre a humanidade que, séculos mais tarde, ainda não estão curadas.
Ao longo da história surgiram várias formas de dinheiro. Outros exemplos são o gado ou o sal. Estas deixaram marcas até na linguagem: salário deriva de sal em latim; e pecuniário deriva de pecus a palavra latina para gado. Todas estas formas perderam o seu valor quando surgiram tecnologias que conseguiam inundar o mercado com maiores quantidades daquele objecto, ou seja, aumentar a oferta. E quando essa “moeda” se torna fraca, perde o valor que lá estava guardado. Ou seja, quando o rácio stock-to-flow diminui. Este rácio pode ser entendido como uma taxa de escassez. Ele enumera o número de vezes que teria que se produzir a quantidade que se produziu no último ano para se atingir as quantidade desse bem em circulação. É uma métrica utilizada, por analistas de mercados financeiros tradicionais, para avaliar commodities como o petróleo, o café ou o ouro.
Saifedean diz que um dinheiro que é fácil de produzir não pode ser considerado dinheiro e que uma moeda fraca não torna a sociedade rica, pelo contrário torna-a mais pobre uma vez que põe a venda a riqueza dificilmente criada por um algo fácil de produzir.