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Como o Ouro ajudou a Humanidade a Inovar

Este artigo é o terceiro de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

O Padrão-Ouro é um sistema monetário internacional no qual as moedas ou papéis utilizados têm convertabilidade directa para a sua quantia em ouro.

Com o advento da metalurgia, a humanidade começou a utilizar metais como reserva de valor por terem liquidez no tempo e no espaço: eram transportáveis – pequenas quantidades representavam muito valor – e duráveis – capazes de resistir à passagem do tempo. Quando começaram a aparecer, estes materiais eram difíceis de criar e, por isso, também era díficil diminuir o seu valor pelo aumento exagerado da quantidade em circulação.

Porquê o Ouro?

Alguns dos metais usados eram prata, cobre ou bronze. Mas o ouro destacou-se ao longo da História por exceder outros metais nas qualidades que lhes deram valor. O ouro é tão estável quimicamente que é praticamente impossível de destruir e é impossível de sintetizar a partir de outros materiais.

Além das características químicas, a escassez do ouro na crosta terrestre torna-o o único metal capaz de sobreviver à “armadilha do dinheiro fácil”, explicada por Ammous. Este conceito reflete as variações no valor de um ativo mediante um aumento rápido da procura:

  1. Se a procura de um ativo aumentar subitamente, o valor do ativo sobe.
  2. A subida repentina do valor do ativo atrai especuladores na esperança de lucro fácil – o preço continua a subir.
  3. A partir de certo valor, torna-se lucrativo investir mais recursos para criar mais desse bem. A par disto, aqueles que tinham usado esse ativo como reserva de valor vão começar a vender para comprar coisas. Afinal, é para isso que serve o dinheiro. Estes dois fatores fazem aumentar bastante a oferta disponível.
  4. O valor do ativo vai desabar face a esta inundação do mercado desse bem e segue-se um período de venda desenfreada.

Desta forma, aqueles que tinham escolhido guardar a sua riqueza vê-la-ão desaparecer. É assim que funciona uma bolha especulativa nos mercados. Os magnatas irmãos Hunt aprenderam esta lição quando conseguiram comprar quase metade do mercado de prata mundial nos anos 1970. Enquanto compraram viram o valor da prata disparar e atrairam muita especulação. Quando a bolha rebentou o preço caiu mais de 80% e os irmãos ficaram com uma dívida de mil milhões de dólares.

A anatomia de uma bolha especulativa.

Só é possível prevenir que a bolha “rebente” se houver um mecanismo natural ou artificial que controle a emissão do material. No caso do ouro, esse mecanismo é a natural escassez relativa deste metal na Terra e, por isso, o aumento anual do stock mundial de ouro não passou dos 3% nos últimos 120 anos. Nem mesmo uma valorização de 35% num ano conseguiu aumentar significativamente a quantidade de ouro em circulação.

O Ouro na História

Ao longo da História, os períodos de maior estabilidade, prosperidade e inovação estão associados à existência de um sistema monetário internacional e uma moeda baseados no ouro.

A Ascensão e Queda do Império Romano

Como vimos anteriormente, o Império Romano tinha uma moeda em ouro que era aceite em toda a Europa sob o domínio de Roma. O declínio do império começou quando deixaram de haver terras para conquistar e os imperadores desvalorizaram a moeda em circulação para tentar manter o estilo de vida luxuoso que mantinham os cidadãos-livres nas grandes metrópoles. Depois de vários ciclos de desvalorização da moeda e consequentes crises económicas o Império acabou por ruir. As pessoas que viviam nas grandes cidades romanas fugiram para os campos para não pagarem impostos exorbitantes. O ouro ficou centralizado nas mãos de alguns senhores feudais e a Europa caiu sob o manto da Idade das Trevas durante os séculos seguintes.

Por seu lado, Constatinopla emergiu como a maior e mais rica cidade da Europa nesse período. Ali a moeda conhecida como besante manter-se-ia estável durante vários séculos e o Império Romano do Oriente manteria a sua força até ao século XV.

O Renascimento começou no Ouro

A Europa só iria recuperar com o Renascimento a partir do século XV. As bases para essa época foram lançadas a partir de 1252 quando foi criado o florim, em Florença – cidade onde viria a nascer Leonardo Da Vinci. As especificações dessa moeda foram copiadas por mais de 150 cidades e estados europeus até ao final do século XV. Surgiu assim uma rede de comunidades que podiam transaccionar entre si e acumular riqueza, digna e livremente, estimulando as populações para criarem e inovarem como a Europa não via havia séculos.

O florim de Florença iniciou o regresso a uma moeda comum na Europa.

Este período de prosperidade e crescimento na Europa foi interrompido algumas vezes por guerras que eram financiadas através da impressão e desvalorização da moeda desse estado o que trazia consequências graves para aqueles que tinham as suas riquezas nessa moedas.

La Belle Époque

O período entre 1870 e 1914 ficou conhecido por este nome por ter sido uma época de paz, prosperidade e inovação científica e cultural na Europa. Nesta altura, as moedas de cada potência europeia estavam referenciadas ao ouro. Isto fazia com que as trocas comerciais entre cidadãos de países diferentes fossem facilitadas pois bastava comparar o valor de cada moeda ao ouro e fazer o câmbio directo que se mantinha estável. O Reino Unido foi o primeiro país a adoptar o padrão ouro em 1717 pela mão de Sir Isaac Newton. Até 1883, países como França, Alemanha ou Suíça juntar-se-lhe-iam para criar um padrão internacional.

Esse padrão internacional para reger as trocas monetárias entre países facilitou as transacções e criou efectivamente um mercado europeu no qual todos os cidadãos podiam comprar e vender sem câmbios complicados. Foi neste ambiente que surgiram invenções que mudariam a vida das populações durante os próximos 100 anos – a bicicleta, o carro, o avião, o telefone, ou o cinema – e novos movimentos culturais como o Impressionismo e a Art Nouveau.

Os problemas do ouro e a corrupção dos bancos centrais

No entanto, carregar ouro acarreta riscos e por isso os bancos começaram a criar alternativas. Estas soluções para facilitar o uso e transporte de “ouro” fizeram com que o ouro físico se aglomerasse nos bancos. As pessoas transaccionavam com mecanismos criados pelos bancos como notas ou títulos. Com o passar do tempo, a sociedade começou a valorizar a própria rede e suas alternativas por confiar que poderia levantar o ouro que tinha no banco em troca dessas notas ou títulos. Eventualmente, os governos perceberam este poder e criaram os bancos centrais que lhes dão a capacidade de criar dinheiro infinito.

O ouro falhou porque os bancos criaram meios de troca que representavam quantidades de ouro maiores do que aquelas que realmente possuíam e mantinham moedas de outros países como reservas.

“As pessoas lutam contra o padrão ouro porque querem substituir o mercado livre por autarquia nacional, paz por guerra, liberdade pela omnipotência de um governo totalitário.”

Ludwig Von Mises, economista da Escola Austríaca

One reply on “Como o Ouro ajudou a Humanidade a Inovar”

[…] No artigo anterior, von Mises enunciava alguns inimigos do padrão-ouro que acabaram por levar a sua proposta avante com consequências desastrosas para a Europa e o mundo. Até hoje, a maior diferença encontrada entre a 1ª Guerra Mundial e as guerras que lhe antecederam não foram geopolíticas nem estratégicas mas sim monetárias. Como os países europeus não estavam constrangidos pelo padrão ouro, podiam inflaccionar a sua moeda a seu bel-prazer para financiar a guerra. Durante os 5 anos que durou a guerra, as moedas dos países que estavam envolvidos perderam entre 10% e 68% do seu valor. Além dos efeitos devastadores dos confrontos, as pessoas viram as suas poupanças, guardadas naquelas moedas, muitíssimo diminuídas. […]

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