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Preços e Escassez numa Economia Livre

Este artigo faz parte de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

Como temos visto nesta série de artigos, o dinheiro tem 3 funções essenciais. Ser um meio de troca e, por isso, usado para planear e calcular actividades económicas. A função de reserva de valor para que as pessoas possam guardar a sua riqueza. A função de unidade de conta que significa que os bens trocados são avaliados em relação ao dinheiro – os preços são estipulados naquela moeda.

Preços São Informação

Segundo Hayek, o problema económico não é apenas o problema de alocar recursos e produtos mas alocá-los usando conhecimento que nenhum indivíduo ou entidade possui na totalidade. Factores como a abundância ou escassez relativa de um produto, as condições de produção ou as preferências dos indivíduos determinam o valor que cada um está disposto a dar em troca de certo bem. Este conhecimento não é possível concentrar numa única entidade. As variáveis que o definem são dinâmicas e vão-se alterando com base em determinadas condições e necessidades da sociedade que as pretende medir. Estas informações estão distribuídas e descentralizadas em cada indivíduo.

Cada pessoa adquire informações económicas que lhe são relevantes para as suas necessidades e desejos. As empresas planeiam as suas decisões com base na informação que os seus trabalhadores reuniram para poder optimizar os seus processos e tornar-se mais competitivas. Estas condições dinâmicas implicam que a informação flua nos mercados constantemente para estabelecer preços para bens e serviços. Essa informação, num mercado livre, são os próprios preços. É através da sua análise que um indivíduo pode decidir que produtos adquirir ou que serviços contratar. Cada indivíduo vai, através dos preços, decidir onde alocar os seus recursos escassos.

Tomemos o exemplo da indústria do cobre. Este material é comercializado como commodity (mercadoria) nos mercados financeiros. Em 2010, um terramoto danificou a infraestrutura do Chile – país que é o maior produtor de cobre no mundo. Esta catástrofe natural impediu que muitas minas continuassem a minerar esse material e afectou o funcionamento do porto através do qual o minério era exportado. Estes eventos causaram uma diminuição brusca na oferta de cobre e um consequente aumento do preço de 6,2%. Toda a indústria do cobre mundial fica afectada pela variação do preço e os incentivos alteram-se. As empresas que usavam cobre como matéria-prima na sua indústria tinham agora um incentivo para reduzir o seu consumo. Por outro lado, os produtores de cobre têm incentivos para aumentar a produção do minério e tirar partido deste aumento do preço.

A variação no preço dá a informação necessária a toda a indústria sobre os incentivos actuais para os seus processos. O resultado da quebra de produção não foi tão grave como poderia ser e o aumento dos preços contribui para que os mineradores consigam fazer as reparações necessárias. Além disso, a adaptação rápida dos intervenientes daquele mercado fizeram com que o preço do cobre voltasse ao normal ao fim de apenas alguns dias.

Mesmo que não soubessem nada sobre o terramoto no Chile e a forma como isso afectou as minas naquele país, as empresas de cobre por todo o mundo conseguiram ajustar os seus processos para voltar a encontrar o equilíbrio no preço do minério sem intervenções externas. O preço mostrou ser o sistema de informação da produção económica que comunica conhecimento pelo mundo e coordena processos complexos de produção. A economia livre precisa de preços precisos denominados num meio de troca comum para que as pessoas possam identificar as suas vantagens e especializar-se.

Ciclos Económicos e Crises Financeiras

É fundamental compreender que a escassez é o ponto de partida para qualquer cálculo económico. É a escassez de recursos que vai forçar pessoas e empresas a optar por um produto em vez de outro. Não houvesse escassez e todos poderiam ter tudo. Como o que se verifica é que todos temos uma quantidade finita de recursos, cada um tem que escolher onde os quer investir. Esta escassez de recursos faz com que cada escolha tenha um custo de oportunidade – escolher um investimento implica deixar passar outro, optar for fazer algo obriga deixar outras actividades por fazer.

O custo de oportunidade de acumular capital é adiar o consumo e o custo de oportunidade do consumo é adiar a acumulação de capital para investimento. O preço que regula esta relação num mercado livre é a taxa de juro: uma taxa de juro mais alta incentiva as pessoas a aumentar as suas poupanças para ter retorno futuro; pelo contrário, à medida que a taxa de juro diminui os investidores são incentivados a pedir mais empréstimos para investir em métodos mais avançados que melhorem a sua produtividade.

No entanto, as economias modernas reguladas por bancos centrais ignoram o conceito de custo de oportunidade e assumem que os bancos podem financiar investimentos indefinidamente com dinheiro novo sem que seja necessário adiar o consumo. As taxas de juro são mantidas artificialmente baixas porque é possível criar mais dinheiro sem grande dificuldade e os bancos operam no sistema fraccionário – podem ter apenas uma fracção do dinheiro que emprestam.

Esta facilidade de acesso ao crédito incentiva ao consumo o que faz com os preços dos bens de capital e de consumo aumentem também artificialmente. A certo ponto, o aumento torna-se insustentável e os preços acabam por cair. Isto cria desvalorizações repentinas tornando alguns projectos não rentáveis. Estes não são terminados e tornam-se um desperdício de capital ao mesmo tempo que eliminam postos de trabalho e aumentam o desemprego. Se estes acontecimentos atingirem todas vertentes da economia cria-se uma recessão. A raiz das crises económicas está na intervenção do banco central e nas alterações que cria nos preços baseado em critérios arbitrários que não conseguem acompanhar as necessidades dinâmicas de toda a sociedade. Estes eventos repetem-se formando o ciclo económico de expansão e contração.

A intervenção do banco central só é possível utilizando uma forma de dinheiro fácil de criar. Uma moeda forte – que exige um grande gasto de energia para criar – torna não lucrativo a criação de dinheiro para financiar projectos que não tenham retorno para a sociedade. Assim, são financiados apenas os projectos rentáveis, que melhorem e façam avançar a sociedade. Um mercado livre permite também que os preços flutuem livremente para reflectir as necessidades e desejos de todos os intervenientes. É possível prevenir que os desequilíbrios fiquem exagerados e sejam corrigidos abruptamente sob a forma de recessões.

Uma moeda forte incentiva toda a gente a ser produtivo para a sociedade.

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