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Dinheiro Forte e Liberdade

Este artigo faz parte de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

Vimos no último artigo desta série, que os preços numa economia livre funcionam como o sistema de informação dessa economia. Que distorções existem quando existe um planeamento central a controlar esse sistema de informação?

Mais Dinheiro. Mais Poder para o Governo.

No modelo económico vigente na maioria do mundo ocidental, que segue os príncipios de Keynes, crê-se que as recessões são causadas por uma redução abrupta na despesa total. Nesta visão estadista, depois de uma recessão o governo precisa aumentar a despesa da economia para retomar os níveis anteriores e manter a economia “saúdavel”.

Existem três formas para o governo estimular o aumento da despesa. Todas elas são uma forma de distorção das informações que deviam circular num mercado totalmente livre. Todas despoletam reacções diferentes nas pessoas e nas empresas: aumentar a reserva de moeda, aumentar a despesa do governo, ou reduzir impostos – esta opção pode levar a que as pessoas comecem a poupar algum do dinheiro que não pagam em impostos. Para um governo que pretende aumentar a despesa, esta não é uma opção saúdavel. As poupanças poderiam diminuir a despesa, e isso seria inimaginável para uma economia que precisa crescer.

Os governos optem frequentemente pela primeira opção. Ao aumentar a reserva de moeda e direcioná-la para os que estão mais próximos de si, o governo aumenta o seu poder sobre os restantes intervenientes da economia.

Essa decisão tem por base, a filosofia Keynesiana e a alta preferência temporal do próprio Keynes: “No longo prazo, estamos todos mortos” – o que importa é recuperar a economia no imediato sem pensar nas consequências a longo prazo.

Dinheiro segundo a Escola Austríaca

O pensamento da Escola Austríaca contrasta profundamente com o pensamento imediatista de Keynes. Além disso, foca-se em perceber os fenómenos de maneira causal e implicações de dedução lógica.

Esta Escola defende que o dinheiro emerge naturalmente do mercado como o bem mais líquido – aquele que pode ser trocado com maior facilidade. A ausência de controlo sobre esse bem é condição necessária para a força da moeda, eliminando a tentação de aumentar a reserva de moeda.

Numa economia em crescimento e que utiliza dinheiro cuja reserva não pode ser aumentada, esse dinheiro valorizará ao longo do tempo. Por sua vez, a valorização do dinheiro, faz com que as pessoas sejam mais contidas no seu consumo e mais viradas para a poupança – para poderem usufruir do maior valor do dinheiro no futuro. Pelo contrário, uma moeda que se deprecia fará com que os cidadãos procurem constantemente retornos que possam bater a inflação, o que aumenta o risco desses investimentos e no fim da linha as perdas dos investidores.

Uma sociedade com dinheiro forte desenvolve uma preferência temporal mais baixa, aprende a poupar e a pensar no futuro. Os investimentos são mais seguros e têm em vista o bem comum da sociedade para a poder avançar.

Dinheiro Fraco e a Guerra Sem Fim

Existem três razões que criam a ligação entre o dinheiro fraco e a guerra:

  1. Cria uma barreira ao comércio entre nações – o dinheiro fraco distorce o valor do dinheiro e faz com que o comércio passe a ser um assunto político, criando animosidades entre países e populações – como podemos observar com as sanções internacionais.
  2. Financia a guerra durante mais tempo– o facto do governo ter acesso a uma impressora que cria dinheiro, permite financiar os esforços de guerra até destruir completamente o valor do dinheiro em vez de o fazer até que se acabe o dinheiro que consegue taxar.
  3. Evita que as populações pensem em cooperação – os indivíduos que lidam com dinheiro forte aumentam a sua preferência temporal, pensando mais em termos de cooperação e não de conflito.

Estas razões ajudam a explicar porque só na era do dinheiro fraco o mundo assistiu a guerras globais e genocídios que tiraram milhões de vidas de forma sem precedente na História.

Governo Omnipotente vs Limitado

Jacques Barzun identifica o final da I Grande Guerra como o ponto de viragem crucial onde começou a decadência do Ocidente. A descida do liberalismo para a liberalidade. Com o liberalismo o papel do governo era deixar o indivíduo viver em liberdade, gozar os benefícios e arcar com as consequências das suas acções; enquanto que com a liberalidade os indivíduos poderiam satisfazer todos os seus desejos sabendo que o governo os protegeria de possíveis repercussões.

O papel do governo na sociedade foi crescendo e as pessoas começaram a entender que poderiam votar para conseguir os seus desejos, sabendo que do outro lado existia um governo que precisa manter a opinião pública a seu favor para se manter no poder – pelo qual tanto anseia. Para financiar esses desejos, os governos passaram a usar e abusar de uma arma que tinham facilmente à disposição – a impressão de dinheiro.

Através desta prestação de serviços, corromperam-se os ideiais da democracia. As pessoas votam segundo as promessas que lhes são feitas esquecendo o custo de oportunidade que sempre tem que existir. E, quando inevitavelmente, tem que se pagar esse custo de oportunidade, viram-se para bodes expiatórios que devem arcar com as consequências.

Foi com o dinheiro fraco que tiranos como Lenine, Estaline, Mao, Hitler ou Mussolini puderam continuar a imprimir dinheiro para financiar as suas barbáries:

  • Primeiro existe a destruição do dinheiro forte, para poder cumprir promessas eleitorais que soam bem a todos.
  • Quando a desvalorização do dinheiro começa a criar tensões na sociedade, as pessoas buscam um bode expiatório.
  • O tirano aproveita o impulso para conquistar o poder.
  • Uma vez estando no poder, consegue imprimir mais dinheiro para financiar as suas megalomanias genocidas e totalitárias.

Cura o Dinheiro. Cura o Mundo.

Um sticker nas ruas de Lisboa.

A cura para todos estes males é o retorno a um dinheiro forte que relembre as pessoas do custo de oportunidade e as faça voltar a pensar no longo prazo.

Uma moeda forte garante o bom funcionamento da economia sem as distorções que são permitidas pelo dinheiro fraco. Num sistema monetário forte, os empreendedores e os investidores são recompensados por criarem algo de valor para a economia e para a sociedade. Neste sistema, uma vez que o dinheiro tende a valorizar ao longo do tempo, as pessoas terão menos apetência para o gastar. A preferência temporal da sociedade em geral aumenta e os povos são instigados em pensar mais em cooperação do que em conflito – para colher os verdadeiros benefícios das boas interacções.

A lição mais importante que podemos aprender com o estudo da economia é que existe sempre um custo de oportunidade: tempo ou dinheiro investido num empreendimento não poderá ser investido noutra qualquer actividade.

Afinal, “não existem almoços grátis”.

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