Este artigo faz parte de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.
No último artigo desta série percebemos como o dinheiro fraco aumenta o poder do governo e de como o dinheiro forte pode aumentar a liberdade dos cidadãos. Se o Bitcoin é o melhor dos dinheiros fortes, vamos perceber quais os benefícios de o utilizar.
Reserva de Valor
O conceito de escassez tem sido deturpado para promover a ideia de que a humanidade poderia ter a capacidade de acabar com as reservas de algumas das matérias-primas que utilizamos. A quantidade real de todos esses recursos vai muito além da nossa imaginação, apenas conseguimos extrair uma infíma parte desses materiais da crosta da Terra. O economista Julian Simon, no seu livro The Ultimate Resource, explica como na verdade o único recurso realmente escasso (até à invenção do Bitcoin) é o tempo humano.
Cada humano tem um tempo de vida limitado e essa é única escassez com que lidamos individualmente. Como sociedade, a escassez é a quantidade de tempo humano dedicado à produção de bens e serviços.
As ideias brilhantes e que permitem a criação de novas tecnologias são raras e vêm de humanos. Por isso, quanto maior a população maior a probabilidade dessas ideias começaram a surgir. Quanto mais humanos existirem na Terra, mais tecnologias das quais podemos beneficiar surgem. Essas tecnologias aumentam a produtividade do tempo humano e por sua vez os padrões de vida de toda a humanidade.
O aumento da produtividade explica porque os preços dos bens e mercadorias tem baixado ao longo da História. O aparecimento de novas tecnologias que facilitam a extração ou criação dos materiais reduz esse custo e baixa o preço para os consumidores.
Surge então o dilema eterno sobre como armazenar para o futuro o valor que cada um de nós produz com o seu tempo. Ora, se conseguimos produzir mais de qualquer recurso a que dediquemos mais tempo humano, foi necessário criar escassez rigorosa artificialmente. O Bitcoin é a forma mais barata de comprar o futuro, porque é o único bem que conseguiu através da escassez digital conseguiu tornar-se realmente finito.
Soberania Individual
James Davidson e William Rees-Mogg no livro The Sovereign Individual (O Indivíduo Soberano) argumentam que os estados-nação, com as suas leis restritivas, impostos altos e impulsos autoritários estão a atingir um nível de repressão capaz de os fazer cair. Comparam-nos com a Igreja Católica da Idade Média, e propõem que os “microprocessadores vão subverter os estados-nação”.
Estabelecem vários paralelismos com aquela época. Tal como a Igreja perdeu poder para as tecnologias que surgiram na altura, também os estados estão a perder poder para novas invenções. A imprensa permitiu que as pessoas pudessem aceder a informação que não estava acessível antes. Hoje a Internet aumentou ainda mais essa capacidade. A descentralização das fontes de informação fez com que deixasse de existir apenas uma narrativa e que os cidadãos pudessem comparar as informações até descobrirem a verdade.
O livro, escrito em 1997, tem visto a sua tese corroborada pelas oportunidades criadas através da Internet. Uber e Airbnb são exemplos de empresas que conseguiram oferecer os seus produtos antes que os governos descobrissem como os regular. Outro exemplo, é o aparecimento dos nómadas digitais e o crescimento dos trabalhos remotos. Permitem que as pessoas escolham o país onde querem trabalhar, viver e pagar impostos. Começa a surgir concorrência entre países, despoletada pela invenção dos microprocessadores e da Internet e o poder para controlar, taxar ou exercer outras formas de violência sobre os cidadãos diminui, pois estes são cada vez mais livres de se mudarem para outro país que lhes ofereça melhores condições.
Os autores fazem outra previsão. Mencionam que surgirão formas de dinheiro criptograficamente seguras e independentes das restrições fisicas que não poderão ser paradas ou confiscadas por autoridades governamentais. A Bitcoin incorporou esta profecia.
A Bitcoin elimina a violência que dá poder ao governo. Se continuar a crescer, a Bitcoin fará com que os governos só possam cobrar impostos de indivíduos que estejam dispostos a pagá-los a troco dos serviços prestados pelo estado. O estado passará realmente a estar ao serviço dos seus cidadãos em vez de os forçar àquilo que favorece os que estão mais perto dos círculos de influência. E fá-lo-á de forma pacífica, à medida que é adoptada por cada vez mais indivíduos que percebem o valor de ter o controlo absoluto do seu dinheiro.
Liquidação Online e Internacional
Tradicionalmente, o ouro era o meio de troca para liquidação de pagamentos e a reserva de valor em todo o mundo. Isso aconteceu porque nenhum interveniente conseguia aumentar as suas reservas. À medida que as transacções se faziam a distâncias mais longas foi necessário a criação de intermediários que asseguravam a liquidação dessa transação. Este acontecimento centralizou o ouro nos bancos que passaram a emitir cheques que representavam o valor do ouro. Mais tarde, os governos confiscaram o ouro e criaram o seu próprio dinheiro, o que impossibilitou que os cidadãos fizessem transacções entre si em ouro. O Bitcoin liberta-se dessa limitação: pode ser transaccionado a qualquer distância.
O “destino final” do Bitcoin será tornar-se a moeda de reserva de bancos que emitam o seu próprio dinheiro digital”
Hal Finney, 2010, destinatário da primeira transacção em bitcoin
O Bitcoin seria a reserva que daria valor ao dinheiro de cada banco e todos eles estariam em pé de igualdade. Ao contrário do que acontece actualmente, em que a moeda de um país funciona como reserva e dá a esse poder sobre os outros podendo emitir dívida e desvalorizar a moeda. Por não ter intermediários não dá poder a nenhum país sobre outros.
Unidade de Conta Global
Hoje em dia o Bitcoin representa apenas cerca de 1% de todo o dinheiro. O aumento desta percentagem fará com que a volatilidade diminua. Aliás podemos verificar isto já na sua curta história. Apesar de ainda ser muito volátil, o Bitcoin é mais estável hoje do que no há alguns anos atrás.
A ausência de uma autoridade central que tenha poder ou controlo sobre o Bitcoin, torna-o único para ser aodptado por cidadãos e países em todo o mundo que queiram guardar o valor que criam com o seu trabalho. Uma adopção generalizada pela sociedade poderia fazer com o Bitcoin se tornasse uma unidade de conta global em relação à qual se avaliariam bens e serviços. Poderia retomar-se uma época idêntica ao padrão ouro, em que o dinheiro de cada país teria como referência o Bitcoin e poderiam comparar-se os valores directamente entre eles. Tal como na época do padrão-ouro, poderíamos assistir a um aumento do comércio entre países.
Como vimos, o uso do Bitcoin traz várias vantagens àqueles que o decidam fazer, sejam eles indivíduos, instituições ou países. Além disso, os benefícios seriam alargados a toda a sociedade pois os efeitos alargariam para além dos utilizadores directos.