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Como Destruir o Bitcoin?

Este artigo faz parte de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

Os críticos do Bitcoin gostam de lhe apontar defeitos, fragilidades e modos de como pode falhar. Vamos ver algumas das mais comuns e se realmente têm fundamento.

Hacking

Uma das primeiras fragilidades que é apontada ao Bitcoin, por ser dinheiro digital, é poder ser hackeado. Este ponto revela uma falha na compreensão do seu funcionamento. A origem da resiliência do Bitcoin tem que ver principalmente com 3 características fundamentais:

  1. Simplicidade – o sistema que protege o Bitcoin, a rede tem alguns níveis de complexidade. No entanto, o núcleo em si é composto por apenas alguns parâmetros essenciais que toda a comunidade aceita e defende afincadamente.
  2. Enorme poder de processamento – o Bitcoin cresceu para se tornar numa das maiores redes globais a nível de poder de processamento. Todo este poder é usado para a proteger.
  3. Nós distribuídos – a rede é mais forte quanto maior o número de nós que têm que estar em consenso- significa que é mais uma cópia que necessita ser alterada por aqueles que pretendem alterar os registos.

Em vez de tentar proteger cada computador individualmente, o Bitcoin funciona baseado na premissa que todos os computadores são uma ameaça. Assim, a verificação torna-se fundamental. Através do algoritmo Prova-de-Trabalho, o custo de ser desonesto fica demasiado alto para atacantes que queiram cometer fraude ou atacar a rede. Pelo contrário, o custo de verificar essa fraude é bastante baixo. Esta assimetria protege a rede, ao alinhar os incentivos fortemente contra a alteração dos registos – algo que ainda não foi conseguido até hoje.

Ataques de 51%

Para conseguir alterar os registos do Bitcoin o atacante teria que agregar uma grande parte do poder de processamento da rede para gerar transações fraudulentas e poder gastar as mesmas moedas mais do que uma vez – eliminando a primeira transação e voltar a gastar essas moedas.

Na teoria, um minerador com uma grande percentagem do poder de computação da rede consegue produzir a Prova-de-Trabalho mais rapidamente e controlar os registos do Bitcoin. A melhor protecção que se pode usar contra este ataque é aguardar. Quanto mais tempo se esperar mais díficil será para o atacante alterar a transação que pretende, pois implicará reescrever uma maior quantidade de transações antes que mais alguém consiga prolongar a cadeia onde está a transacção original. Actualmente, angariar o poder necessário para ter uma percentagem tão grande da rede implicaria um custo exorbitante que nunca compensaria o investimento.

Além disto, uma reversão destas criaria uma desconfiança enorme no Bitcoin e reduziria enormemente a procura pelas suas moedas. Ou seja, ao conseguir efectuar um ataque destes, o atacante estaria efectivamente a reduzir o valor daquilo que pretende “roubar”: os bitcoins.

Hardware Backdoors

Uma forma de destruir o Bitcoin seria através de “backdoors” no hardware utilizado na mineração – um “interruptor” oculto que permitisse desligar remotamente o equipamento de mineração quando o atacante pretendesse realizar o ataque de 51%. Uma vez que ainda existem poucos fabricantes destes equipamentos – este continua a ser um dos principais pontos de falha do Bitcoin. No entanto, têm surgido mais empresas interessadas em fazer parte deste mercado – como a Intel – e é de esperar que à medida que o mercado cresça mais fabricantes queiram entrar no jogo.

Ataques à Internet ou à Infraestrutura

Este é um ataque que é mencionado muitas vezes, sem perceber as repercussões que destruir a Internet teria na sociedade – e mesmo assim o Bitcoin conseguiria continuar a funcionar por rádio ou mesmo satélite. É preciso entender que o Bitcoin é, na sua base, um protocolo que permite que computadores se liguem entre si, como a própria Internet. E existirão outros meios de o fazer além da Internet.

A sociedade actual depende demasiado da Internet para que alguém possa mandá-la abaixo apenas para destruir o Bitcoin. E não é só para usar as redes sociais ou ler este blog espectacular! Informação e dados económicos, médicos ou para o funcionamento básico da sociedade circulam na Internet e causariam danos tão profundos que ninguém se preocuparia se o Bitcoin ainda funcionava ou não.

Aumento no Custo dos Nós

Uma ameaça bem mais credível seria uma alteração nas regras de consenso fundamentais do Bitcoin que obrigaria a um aumento no custo de manter um nó – isso aconteceria ao aumentar o tamanho dos blocos. Blocos maiores necessitariam de mais memória e rapidamente o custo dessa memória se tornaria inacessível para o utilizador comum. A força do Bitcoin está nos números. Por ser acessível, está descentralizado e existem mais de 15.000 nós activos – mais de 15.000 cópias da blockchain da Bitcoin que protegem a rede e o seu valor.

Na verdade, esta é uma ameaça que o Bitcoin já venceu. As “Guerras dos Blocos” dividiram a comunidade sobre qual seria o melhor caminho a seguir para escalar. Uma parte defendia que a melhor forma de se conseguir escalar o Bitcoin seria o aumento do tamanho dos blocos. Como não se conseguiu um consenso, surgiu um hard fork: o Bitcoin Cash. E desde aí, o Bitcoin valorizou muito mais que a sua “cópia”.

Quebrar o Algoritmo SHA-256

O algoritmo SHA-256 mantém segura as chaves privadas dos utilizadores. Até hoje ninguém conseguiu mostrar que conseguiu quebrá-lo. Quebrar este algoritmo implicaria quebrar uma parte importante da confiança do Bitcoin. Uma ameaça real ao algoritmo é a computação quântica, mas acreditamos que também essa ferramenta terá objectivos mais interessantes do que destruir uma criptomoeda.

De qualquer forma, a política monetária inalterável, a resistência à censura e outras características do Bitcoin serão suficientes para que a rede migre para um algoritmo mais forte se esta ameaça se tornar real.

Regresso a um Dinheiro Forte

Se o valor do Bitcoin está sua política monetária que o torna um dinheiro forte, a maior ameaça seria acabar com a necessidade de buscar uma alternativa. Se uma forma de dinheiro forte voltasse a ser o padrão no mundo era expectável que o interesse numa alternativa se extinguisse. A única forma de parar uma tecnologia é acabar com a sua necessidade ou criar um melhor substituto e não é baní-la. O regresso ao Padrão-Ouro é a maior ameaça ao Bitcoin uma vez que a humanidade está habituada a lidar com ele há milhares de anos. Na prática, o regresso a um dinheiro forte é extremamente improvável, uma vez que não serve os interesses daqueles que estão no poder.

A resiliência do Bitcoin não está escrita nas regras mas sim nos incentivos económicos que forçam as pessoas que o usam a protegê-lo.

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