A conferência Bitcoin tem sido um evento para anunciar novidades na mais famosa criptomoeda. Realiza-se em Miami nos últimos dias e a peregrinação levou até àquela cidade norte-americana mais de 25 000 bitcoiners. Na edição de 2019, a conferência tinha apenas 800 participantes. Em apenas 3 anos, houve este crescimento impressionante. A edição deste ano tinha 5 palcos diferentes e palestrantes com nomes muito relevantes no meio.
1º Dia

Um dos principais pontos de interesse foi a estátua do touro-robot revelada pelo Mayor de Miami – uma provocação à estátua do touro de Wall Street – “Charging Bull”. Se Nova Iorque é o centro financeiro global do mundo tradicional, esta estátua é uma declaração de intenções da cidade de Miami para se tornar na “capital do capital” e centro do mundo financeiro no novo padrão Bitcoin – a materialização de que a cidade quer atrair talentos e capital para inovar em Bitcoin.
Outra revelação muito interessante, foi a proposta de desenvolvimento do protocolo Taro. Esta inovação permite usar a Rede Lightning para emitir vários ativos digitais como stablecoins. O objectivo anunciado é “bitcoinizar o dólar“, ou seja, permitir que as pessoas usem a rede Bitcoin para enviar dólares, ou outra moeda fiat, para qualquer ponto do mundo sem que as pessoas saiam do padrão Bitcoin. A adopção deste protocolo abre um leque de possibilidades para activos que se poderão transacionar na própria Bitcoin – stablecoins, acções ou até NFTs.
Um tema abordado numa das palestras no primeiro dia foi a forma como as pessoas podem usar Bitcoin para manter o valor do seu trabalho e a da riqueza que acumularam num ambiente inflaccionário que está cada vez mais claro um pouco por todo o mundo. Um exemplo disso, é o aumento da procura de Bitcoin pelos investidores tradicionais. Essa procura resulta na oferta deste activo aos seus clientes por fundos tradicionais, como a Fidelity ou o Grayscale, que tem visto essa procura continuar a aumentar.
No primeiro dia, focado na indústria, surgiram muitas novidades também relacionadas com a mineração. Inovações nos chips utilizados para minerar que se espera que tragam melhorias na capacidade de processamento – exemplo disso é a aposta da gigante Intel neste mercado. Por outro lado, também surgem ideias para que a mineração passe a fazer parte do quotidiano das pessoas – que se possa minerar a partir de casa e de electrodomésticos adaptados para o efeito – por exemplo, um aquecedor que aqueça a casa e ainda assim recompense os indivíduos com alguns satoshis.
2º Dia
O segundo dia começou com uma palestra sobre a Soberania Individual e como o Bitcoin pode ajudar as pessoas a se tornarem mais independentes e soberanas – o Bitcoin é uma ferramenta para que os indivíduos possam controlar a sua riqueza sem que dependam de intermediários e que ninguém a possa confiscar. Seguindo este padrão ninguém tem poder sobre ninguém. Existe igualdade entre todos os intervenientes da rede.
Uma palestra com dois pesos-pesados da indústria financeira e que têm mostrado que acreditam em Bitcoin foi a que reuniu Cathie Wood, CEO da ARK Invest, e Michael Saylor, CEO da Microstrategy – que em pouco mais de 1 ano comprou mais de 120 000 bitcoins. Os dois falaram de como a abordagem política à Bitcoin se têm alterado nos últimos tempos. Quando antes se falava que os governos poderiam banir o Bitcoin, hoje vemos que cada vez mais políticos mostram o seu interesse na tecnologia e começa a surgir competição entre estados para conseguir atrair talentos e investimentos para os seus territórios.

Um dos anúncios que fez correr mais tinta foi a intenção de adoptar Bitcoin como moeda por 3 regiões no mundo:
- Próspera, uma cidade nas Honduras;
- a ilha da Madeira, aqui de Portugal;
- o México, através de uma proposta que será feita pela senadora Indira Kempers de I.
Apesar de serem, para já, apenas intenções é de notar que a teoria dos jogos está a começar a fazer efeito e depois de El Salvador outros locais começam a perceber o valor e é mais uma forma para tentar atrair talentos e capital para as suas regiões através desta nova economia.
Um tópico muito interessante foi discutido por Alex Gladstein: algo a que ele chama de colonialismo financeiro. Refere-se ao facto, de a França controlar 15 países e 180 milhões de pessoas em África através do franco CFA cujas transações internacionais têm que passar obrigatoriamente por França e limitam a independência e soberania daquelas regiões.
Uma das palestras mais aguardadas era a de Jack Mallers, o CEO da Strike – uma empresa que usa a rede Lightning para ligar contas bancárias tradicionais em várias partes do mundo, permitindo que as pessoas enviem dinheiro sem pagar taxas. Tinha sido ele quem anunciou que El Salvador iria adoptar Bitcoin como moeda e por isso a expectativa era grande. O anúncio não foi tão grandioso como se esperava mas ainda assim, relevante. Jack anunciou duas parcerias: com a Shopify – responsável por cerca de 11% de todo o comércio online -, e com a NCR, a maior empresa de pontos-de-venda (os “multibancos” que utilizamos para pagar as nossas compras) – mostrando que o Bitcoin se está posicionar cada vez mais como concorrência ao sistema tradicional e especificamente a Visa e a Mastercard.
3º Dia

Outro dos pontos altos foi anúncio da parceria entre a Blockstream (que tem Adam Back como CEO, um dos poucos que interagiu directamente com Satoshi Nakamoto), a Block (liderada por Jack Dorsey) e a Tesla (de Elon Musk) para criar uma central fotovoltaica para minerar Bitcoin. A ideia é criar uma prova de conceito para mostrar que a Bitcoin é um incentivo para o desenvolvimento de energias renováveis. A central será capaz de minerar mais de 4 bitcoins por mês. Nessa palestra também se falou de como a rede Bitcoin tem sido atacada por usar muita energia, quando existem existem outras tipos de consumo de energia que não são criticados, uma vez que a vida nos países desenvolvidos exige o consumo de muita energia. A solução passa por criar mais fontes de energia renováveis e não impedir o desenvolvimento de tecnologias com tanto potencial como o Bitcoin.
Havia também muita expectativa para ver a palestra de Jordan Peterson. O filósofo falou sobre como a centralização do poder e do sistema financeiro actual beneficia poucos em detrimento de muitos; e se se mostrou um bitcoiner convicto também alertou para os perigos do deslumbramento excessivo daqueles que chegam de novo à comunidade.
Noutro painel falou-se sobre a relação entre a macroeconomia e o Bitcoin. De como o Bitcoin se comporta de forma inversa ao sistema tradicional que está em num ambiente inflaccionário generalizado. Esta ferramenta deve ser usada, na opinião dos intervenientes não para fazer trading mas sim para preservar o valor que cada um conquistou. Discutiram também como a hegemonia do petrodólar parece estar cada vez mais ameaçada e poderá perder o estatuto de moeda de reserva global. Será que o Bitcoin se conseguirá tornar nessa referência?
Outro ponto interessante foi a questão da inovações que estão a ser feitas em Bitcoin. Uma das críticas que se faz à maior criptomoeda é que não tem conseguido inovar e por isso tem surgido criptoactivos que se dizem melhores que o Bitcoin por serem mais adaptáveis. A verdade é que os programadores e a comunidade Bitcoin decidiram manter a primeira camada estável usando a segurança e a descentralização como pilares inalteráveis. Depois de consolidar essas características, começam a surgir soluções para segundas camadas – como a rede relâmpago ou sidechains – que poderão suportar outras soluções e inovações que permitam usar a rede para muito mais fins – como suportar outros activos que não bitcoins ou transacções instântaneas.
4º Dia – Sound Money Fest
O último dia da conferência, foi reservado para um festival de música com nomes como Steve Aoki, DeadMau5 ou o rapper Logic.