Durante a última semana reuniram-se em El Salvador representantes de 44 países para falar sobre inclusão financeira e perceber como a Bitcoin os pode ajudar nessa missão.
A conferência organizada pela Aliança para a Inclusão Financeira – que representa 89 países em desenvolvimento – e o Banco Central de El Salvador levou os governantes até à praia de El Zonte para perceber como a equipa que criou a Bitcoin Beach conseguiu explicar à comunidade os benefícios de usar Bitcoin. E como isso se espalhou pelo país de tal forma que levou o presidente de El Salvador a decretar o seu país como o primeiro a adoptar a moeda digital como curso legal.

A lista de países inclui, por exemplo, Gana, Burundi, Paquistão, Jordânia, Maldivas ou Costa Rica. A maior parte são países em desenvolvimento e cujas populações estão alienados do sistema financeiro tradicional e não têm acesso a serviços bancários. É expectável que sejam estes países os primeiros a ter interesse numa tecnologia como a Bitcoin. O sistema financeiro actual não os está a favorecer e portanto, devem procurar alternativas que lhes permitam incluir-se na economia e comércio global de forma a procurar melhorias de condições de vida e crescimento económico.
O intuito da conferência era entender como um ecossistema digital e as inovações financeiras poderiam ajudar pequenas e médias empresas e incluir mulheres e jovens. Para isso tiveram uma aula práctica. Durante a conferência, a equipa de Bitcoin Beach mostrou aos governantes e banqueiros centrais presentes como usar uma carteira lightning para realizar transacções instântaneas e gratuitas mostrando o potencial que a tecnologia tem para os seus países e povoações.
Quais os benefícios para os países e as suas populações?
A rede Bitcoin representa uma enorme oportunidade de liberdade e inclusão financeira para esta população que historicamente tem estado à margem do sistema financeiro. Mas para que os países tenham interesse em “patrocinar” estas iniciativas para as suas populações têm que perceber quais os incentivos que esta tecnologia lhes pode trazer. Existem 3 principais formas que os podem beneficiar:
1 – Atrair Investimento
A adopção de politicas pró-Bitcoin podem trazer investimento estrangeiro. Através de empresas que queiram fixar-se num local com jurisdição e um sistema de impostos favorável à Bitcoin ou pelo meio de proprietários da criptomoeda que procurem um sistema que os beneficie a manter as suas posses. Desta forma podem atrair capital que ajude a desenvolver a sua economia criando empregos ou melhorando o nível de conhecimento dos jovens para que possam lançar os seus próprios projectos.
Acreditando que a Bitcoin é o futuro das finanças e do dinheiro existirão muitas aplicações para desenvolver. Ao trazer para os seus territórios pessoas capazes de ensinar e ajudar os locais a criar as suas próprias aplicações, podem fomentar os seus mercados internos a tornarem-se tecnologicamente mais desenvolvidos e aumentar as receitas da economia local.
2 – Reduzir Taxas nas Remessas
Uma parte importante do PIB de alguns países em desenvolvimento são as remessas em dinheiro que recebem dos emigrantes que estão nos países desenvolvidos. No caso de El Salvador, estas quantias representavam, em 2020, mais de 24% do PIB do país! Uma das aplicações que usa a rede lightning – uma segunda camada da Bitcoin – que já é utilizada em El Salvador é permitir que os locais recebam as remessas enviadas directamente na sua carteira móvel, instantaneamente e sem pagar taxas a intermediários.
Por um lado, aumentam a sua segurança por não terem que se expôr à porta de um balcão onde todos, gangues incluídos, ficam a saber que irão levantar dinheiro. Por outro, conseguem receber a quantia total que os seus familiares enviaram. Dinheiro que antes ficava numa empresa normalmente estrangeira e que levava os lucros para longe daquelas povoações. Este maior injecção de capital beneficia a economia geral do país porque essas pessoas ficam com mais dinheiro para poderem comprar os bens que precisam. Conseguem assim fazer crescer a economia local e alimentar a melhoria das suas condições de vida.
3 – Descolonização Monetária
A rede Bitcoin é uma rede peer-to-peer. Ou seja, não existem hierarquias que possam dar poder a uns estados sobre outros. Ainda que a colonização pelos países europeus pareça um problema já há muito ultrapassado, a França ainda controla 15 nações africanas através de colonialismo monetário.
Países africanos francófonos como o Senegal, Togo ou Mali utilizam o franco CFA. Uma moeda fiduciária controlada, pelo menos em parte, pela própria França (que ironicamente usa o euro). Uma das características do franco CFA que dá poder à França sobre estes países é que as transacções internacionais que estes países queiram fazer têem que passar pela própria França, retirando-lhes autonomia. Mas não só por terem controlo do sistema financeiro daqueles países a França está em constante vantagem em relação a eventuais parceiros com quem os países controlados queiram negociar.
A Bitcoin serve como ferramenta de libertação.
Utilizar uma rede entre pares, impede que existam controladores ou intervenientes que tenham vantagens constantemente, mesmo que sem o consentimento de uma das partes. Desta forma, os países são livres de criar negócios com os parceiros que lhes oferecerem as melhores condições sem estarem dependentes da aprovação de terceiros.
Apesar da Bitcoin, ter tido até agora uma adopção que acontece de baixo para cima – a partir da população e não imposta pelos governos – a presença institucional nestas reuniões pode servir para legitimar e dar uma maior sensação de segurança aos cidadãos que assim descobrem a tecnologia e podem investigar e experimentar.
Curiosamente, nas conferências de Bretton Woods também participaram 44 países. Nesse encontro, foram definidas as regras do mundo financeiro que utilizamos até hoje. Uma vez que aconteceram após a 2ª guerra mundial, os vencedores da guerra aproveitaram a sua condição para que essas regras os favorecessem – com os EUA à cabeça.
Também na conferência foram criados o FMI e o Banco Mundial. Estas instituições estão agora ameaçadas por um novo sistema financeiro baseado em Bitcoin. É por isso que já começaram a incluir claúsulas anti-Bitcoin/cripto nos financiamentos que fazem aos países que dizem ajudar. Está aberta a guerra pela sobrevivência desse sistema.