As stablecoins têm sido apontadas, pelas instituições tradicionais, como um perigo sistémico que pode contaminar o sistema financeiro tradicional. Será que têm razão? Vamos perceber o que são e como funcionam.
O que são stablecoins?
Activos digitais programados para replicar o valor de uma moeda fiduciária. Estes criptoactivos têm algum mecanismo a funcionar “debaixo do capot” que os faz imitar o valor das moedas emitidas pelos governos. Existem stablecoins que simulam o valor de dólar norte-americano, euro, o yuan da China e outras.
Para que servem?
Estes activos têm sido usados por cripto-investidores como moeda de reserva quando não querem estar expostos à volatilidade dos criptoactivos. Surgem como alternativa às moedas fiduciárias mantendo-se no mundo cripto.
Por outro lado, também estão a ser usadas cada vez mais por cidadãos um pouco por todo o mundo em países que já utilizam o moedas estranegeiras na economia local. É mais uma alternativa que estas pessoas têm para poderem “fugir” das moedas locais, que são mais fracas, para tentarem preservar o valor do seu trabalho. Para isso usam outras moedas que desvalorizam menos. Ainda assim, continuam expostos às vontades dos seus governos e bancos de que possam manter esse valor.
Recente no Líbano, os cidadãos viram o governo impedir-lhes o acesso a moedas estrangeiras. Naquele país, em 2019, para tentar valorizar a libra libanesa o governo proibiu os levantamentos em dólares nos bancos locais para tentar estimular o uso da libra libanesa e devolver-lhe alguma força. O resultado foi o oposto. O povo perdeu a confiança na moeda local e a inflação disparou: desde julho de 2020 que todos os meses está constantemente acima dos 100%. Utilizando um criptoactivo, que será mais descentralizado, será muito mais difícil bloquear o acesso a esse activo. Assim, as pessoas poderão manter as suas riquezas e continuar a aceder-lhes.
Que tipos existem e como funcionam?

No entanto, nem todas as stablecoins são iguais. Podemos comparar cada um destes protocolos a um banco que tem activos e passivos. O que varia é aquilo a que chamamos de colateral – os activos que utilizam para manter o valor da moeda que emitem. Existem 4 tipos de stablecoins de acordo como tipo de colateral que usam:
- Lastreadas por moedas fiduciárias;
- Lastreadas por mercadorias (commodities)
- Lastreadas por criptoactivos;
- Não lastreadas ou Algorítmicas.
Lastreadas por Moedas Fiduciárias
Este é o tipo mais usado. Para criar as stablecoins a entidade que as emite, tem reservas da moeda fiduciária à qual pretende ter um valor idêntico na relação de 1:1. Desta forma, pode reinvidicar que o valor da sua moeda tem o mesmo valor daquela cujo valor copia.
A principal falha deste tipo é que é necessária uma entidade central que assegura as reservas e na qual se deve confiar pois não há forma de verificar numa blockchain e a qualquer momento que as reservas realmente existem. O exemplo mais conhecido é o Tether (USDT).
Lastreadas por Mercadorias (Commodities)
Este género de activos pretendem simular o preço de um activo físico (ouro) na blockchain. Neste caso, o colateral que usam é precisamente a mercadoria física guardada numa localização segura.
Mais uma vez, é necessária a confiança numa entidade externa que mantenha as reservas necessárias para manter a paridade 1:1 entre a stablecoin e o activo físico. O Digix Gold Token (DGX) é um dos maiores exemplos.
Lastreadas por Criptoactivos
Outro tipos de stablecoins, mantém as suas reservas em criptoactivos para conseguirem a descentralização e eliminarem a necessidade de confiança. Mantendo o colateral na blockchain é possível verificar que a quantidade de colateral é suficiente para emitir uma determinada quantia da moeda, mantendo o seu valor.
Um exemplo bem conhecido é o Dai (DAI). Esta stablecoin, mantém uma reserva diversificada de criptoactivos para ser mais resistente à volatilidade do colateral que lhe dá valor. No entanto, devido a essa volatilidade, não é muito eficiente na alocação de capital. Por segurança e para conseguir suportar perdas de valor no colateral mantém reservas muito superiores ao valor emitido. O que significa que ficam muitos activos retidos para conseguir manter a estabilidade desejada.
Não Lastreadas ou Algorítmicas
Precisamente para tentar resolver a ineficiência do tipo anterior surgiram as stablecoins algorítmicas. Estas minimizam a quantidade de fundos necessários para manter a estabilidade na moeda que emite. Para isso, utiliza um algoritmo que aumenta ou diminui a quantidade de moeda que existe em circulação de acordo com a procura do mercado e ajusta o colateral.
Estas moedas existem dentro de um ecossistema como um par de criptoactivos: uma stablecoin e um activo que é criado (mint) ou destruído (burn) para lhe dar valor que acaba por ser o colateral da moeda emitida. A diferença principal para as anteriores é que aqui só é usado apenas este token como colateral, enquanto que nas outras se usa uma carteira diversificada de criptoactivos.
O ecossistema Terra é um exemplo que ficou bem conhecido pelas piores razões. Pegando no exemplo da LUNA (activo) e UST (stablecoin) e admitindo que 1 LUNA valia 10 UST. Neste caso podes sempre trocar LUNA por UST ao valor unitário, ou seja, podes trocar 1 LUNA por 10 UST ou trocar 10 UST por 1 LUNA.
Mas se LUNA é criado do nada, como ganha valor para que se possa emitir UST? Mais uma vez é o ecossistema que funciona em conjunto. Quando o preço de LUNA aumenta, destrói-se LUNA e cria-se UST pelo valor de LUNA destruído. Pelo contrário, quando o preço de LUNA cai, os participantes do mercado trocam UST por muitos LUNA. Desta forma conseguiria manter-se o equilíbrio no ecossistema e a estabilidade de UST. Como já sabemos não funciona em casos extremos.
As moedas algorítmicas têm sempre algum mecanismo para manter a estabilidade. Mais ou menos semelhante ao de Terra onde existe um activo que dá valor à stablecoin enquanto ajustam a quantidade da stablecoin de acordo com o valor total desse activo. Na próxima semana vamos perceber o que falhou em específico no protocolo Terra e porque é que ainda não se conseguiu ter uma verdadeira stablecoin algorítmica bem sucedida.