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Bitcoin – a revolta financeira

Para perceber de onde veio este mundo de criptoactivos e mais especificamente a Bitcoin, temos que olhar para o passado até à crise financeira mundial de 2008. Depois de analisar os factos é muito difícil dissociar esses dois acontecimentos: o fim da confiança no sistema financeiro e o nascimento da Bitcoin.

Em apenas 3 meses, entre Agosto e Outubro de 2008, o sítio Bitcoin.org foi criado, o banco de investimento Lehman Brothers declarou falência, o governo norte-americano investiu 700 mil milhões de dólares num programa de apoio ao sistema financeiro e Satoshi Nakamoto lançou um white paper – documento técnico – em que fundou a Bitcoin e a base para a tecnologia blockchain.

Se por um lado se assistia ao desmoronar de instituições centenárias baseadas na confiança e assentes na ética, por outro via-se nascer uma tecnologia revolucionária baseada em cálculos numéricos independentes das emoções humanas.

A Crise Económica de 2008 teve como catalisador um sistema de crédito irresponsável – atribuído a pessoas sem capacidade para os liquidar – chamado subprime. Os bancos emprestaram dinheiro às pessoas para comprar a sua casa, sem verificar se essas pessoas tinham capacidade para conseguir pagar os empréstimos. Como toda a gente conseguia ter acesso ao crédito, a procura aumentou e foi criada uma bolha no imobiliário norte-americano. Depois os bancos agregaram vários créditos de alto risco em “pacotes” – chamados títulos – vendidos como activos únicos a outros bancos e instituições, sem que fosse possível saber os activos e as hipotecas que lá estavam dentro, devido à complexidade propositadamente conferida a esses títulos. Por sua vez, estas instituições vendiam-nos nos mercados financeiros, com promessas de alta rentabilidade. Aqui eram comprados por investidores particulares e governos de todo o mundo. Este esquema de compra e venda de créditos tinha como objectivo mascarar e transferir o risco do dinheiro investido para outros. O desenrolar deste processo criou ligações muito fortes entre os créditos, bancos e governos. Devido a estas associações sucessivas, e, visto que, os empréstimos iniciais foram irresponsáveis e, mais irresponsável ainda, a forma como os bancos os agregaram e mascararam, quando essas pessoas deixaram de conseguir pagar os créditos criaram um efeito bola de neve catastrófico que se tornou demasiado pesado para os bancos conseguirem aguentar.

Quando os bancos caíram, arrastaram consigo milhões de pessoas, negócios e até países para a falência. No final da crise, mais de 15 milhões de pessoas em todo o mundo tinham perdido os seus empregos. Na tentativa de salvar as suas economias, vários países nacionalizaram instituições financeiras e de crédito, injectando mais de 1,17 biliões de euros, só na zona Euro, saídos dos bolsos dos contribuintes e que agravaram ainda mais as condições económicas da sociedade. Estas mudanças drásticas na vida de tanta gente e de forma tão repentina quebrou a confiança que a sociedade tinha no sistema financeiro.

Devido à complexidade deste tema, esta explicação pode ser demasiado simplista. Para um melhor entendimento da crise de 2008 visite a página da Wikipedia que a explica de forma pormenorizada.

No dia 31 de Outubro de 2008, apenas 6 semanas depois do banco Lehman Brothers ter declarado falência, Satoshi Nakamoto publicou o documento técnico que seria a fundação da Bitcoin e onde estão as bases para a tecnologia blockchain. Nesse documento está a frase: “Propusemos um sistema para transacções electrónicas sem depender da confiança.” Com esta frase, Satoshi revelou estar atento à promiscuidade do sistema financeiro e criou algo para preencher a necessidade de eliminar as emoções humanas do controlo do dinheiro da sociedade.

Para divulgar o seu paper Satoshi enviou-o para uma lista de endereços de email de criptógrafos – The Cryptography Mailing List – onde estavam subscritores interessados em criptografia e nas suas aplicações. Criptografia é a prática e o estudo de formas de comunicação seguras, “em código”, para evitar que sejam decifradas por terceiros. Foi a partir daqui que o mundo tomou conhecimento desta nova tecnologia e aqui que surgiram os primeiros seguidores de Satoshi.

Consciente de que não se iria encontrar uma solução para os problemas políticos na criptografia, Satoshi buscou criar um território seguro criando um sistema descentralizado que os governos não pudessem atacar destruindo um ponto central de controlo. Para alcançar este objectivo, lançou o código base da Bitcoin em SourceForge.net, um site especializado em dar condições para o desenvolvimento de software open-source – um sistema público em que qualquer pessoa pode rever, participar e ajudar no desenvolvimento e implementar melhorias.

Depois de a tornar uma rede pública, a primeira informação que Satoshi registou na blockchain da Bitcoin, foi: “The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout of banks.” Referia-se à manchete do jornal britânico The Times que falava da hipótese de naquela data o governo daquele país ter que ajudar financeiramente mais bancos para que não colapsassem. A escolha desta manchete demonstra o desejo de que nunca nos esqueçamos do que sofremos durante aquele período economicamente conturbado, que causou fracturas sociais que sentimos ainda hoje. Foi com ela que Satoshi demonstrou uma característica poderosa da blockchain: a capacidade para guardar informações de forma transparente sem que essas possam ser alteradas.

Nove dias depois foi feita a primeira transacção de sempre entre Satoshi Nakamoto e Hal Finney – um pioneiro da Bitcoin que ajudou no seu desenvolvimento e estava na lista inicial de critógrafos que receberam o paper. E, em Setembro de 2009, a primeira taxa de câmbio estabelecida, segundo a qual seriam necessárias 1309 bitcoin para chegar ao valor de 1 dólar americano. Este dólar hoje valeria mais de 13 milhões de dólares!

Estavam lançadas as bases para um sistema financeiro alternativo distribuído, criptográfico e imutável. Nascido das cinzas da confiança no sistema financeiro global cuja destruição causou sofrimento a um incontável número de pessoas e as tem levado a adoptar uma alternativa incorruptível.

Tinha nascido a Bitcoin.

One reply on “Bitcoin – a revolta financeira”

[…] Em Outubro de 2008, cerca de dois anos depois do primeiro esboço da ideia, era publicado o white paper – documento técnico – onde propunha as bases para a blockchain e a criava a Bitcoin. Nesse documento falava explicitamente em como a Bitcoin seria uma alternativa ao sistema financeiro tradicional sem a necessidade de se confiar em intermediários e na sua moral. Bitcoin foi a revolta de Satoshi. […]

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