O dinheiro é tão antigo como a civilização, mas a sua forma tem mudado.
O dinheiro tem assumido diferentes formas ao longos dos tempos mas acompanha a civilização desde os primórdios. É até anterior à escrita. Existem hieróglifos e escrita cuneiforme que falam sobre dinheiro e que registam transacções.
Na verdade, o dinheiro é algo tão primitivo que podemos ensinar macacos a usá-lo. Uma equipa de investigadores conseguiu fazê-lo e os resultados foram curiosos. Ao ensinar os macacos que podiam trocar umas pedras específicas por fruta, os macacos evoluíram e inventaram novas maneiras de conseguir mais pedras. Uns tentaram roubar “moedas” a outros e inventaram a prostituição, trocando as moedas por favores sexuais. Violência, sexo e dinheiro! O nível primitivo da evolução.
Entre os homo sapiens podemos olhar para o dinheiro como uma linguagem. Uma forma de comunicar o valor que damos a produtos, serviços ou gestos. Podemos então dizer que o dinheiro é uma forma de comunicação. É uma tecnologia pré-histórica para comunicar valores em sociedade.
A primeira forma que o dinheiro assumiu foram as trocas directas. Trocas directas de alimentos. Essa foi a primeira forma de atribuir valor aos outros e aos seus produtos. Depois disso, o dinheiro começou a tomar uma forma mais abstracta, deixou de ser algo que se podia comer. A forma mais relevante são os metais preciosos que ainda hoje são considerados uma maneira de manter valor. Estão nessa posição há tanto tempo devido às suas características: escassos, transportáveis, divisíveis e valorizados universalmente.
Demorou alguns milhares de anos até que tivéssemos mais um salto tecnológico no conceito do dinheiro: o papel. Comerciantes e viajantes perceberam que andar com muitas moedas tornava-se pesado e, por isso, difícil de transportar. Então depositavam o seu metal precioso e pesado com alguém de confiança, que lhes emitia uma nota dizendo quanto metal tinham deixado e que o poderiam levantar se apresentassem esse papel. Em vez de fazerem trocas em ouro e moedas, as pessoas começavam a fazer trocas com pedaços de papel, que entretanto evoluíram para as notas que utilizamos e as pessoas de confiança são os governos e os bancos. Esta evolução levou algumas centenas de anos até que as pessoas a aceitassem, por exigir que as pessoas ganhassem confiança nessa nova forma de dinheiro.
Mais tarde, há cerca de 60 anos, surgiu o dinheiro de plástico. Os cartões de crédito que, mais uma vez, demoraram algumas décadas a serem aceites pela sociedade que via mais um nível de abstracção em relação ao dinheiro a que estava habituada.
Com o advento da internet, começou a surgir a ideia de criar o dinheiro digital. Em 1993 surgiu o primeiro sistema de pagamentos digitais chamado ecash, para permitir pagamentos anónimos e seguros através da internet. Surgiram mais alguns exemplos e empresas que tentaram criar o dinheiro da internet, como egold, Karma ou o caso mais bem-sucedido do PayPal, do qual faziam parte Elon Musk e Peter Thiel. No entanto, todas apresentavam uma falha fundamental: não acompanhavam a internet nas suas raízes puramente descentralizadas, tornando-se assim susceptíveis a corrupção e pontos singulares de falha.
A resolução desse problema é o milagre da Bitcoin: criar uma rede global que concorde em atribuir valor a algo e que pode ser usado como moeda sem forma física nem apoio de um governo.
A Bitcoin é muitas vezes desvalorizada por não ser algo físico com que possamos interagir. Mas quando se percebe como funciona, percebemos que a necessidade de “possuir” algo na sua mão não é uma característica relevante para atribuir valor a algo.
Como referido mais atrás, os metais preciosos são valorizados por serem escassos, transportáveis, divisíveis e valorizados universalmente.
As criptomoedas são mais transportáveis que as outras formas de dinheiro já que são puramente digitais. São simplesmente dados que são passados de uma conta para outra e pelos quais somos inteiramente responsáveis.
São divisíveis: podemos enviar um milionésimo de bitcoin para outra conta, da mesma forma e com o mesmo custo para enviar um milhão de bitcoin.
As moedas actuais, chamadas fiduciárias, – dólar, euro, real – são valorizadas porque existe um governo, um banco central – e, pela força, um exército – que nos fazem acreditar que realmente têm valor. No caso das criptomoedas, terão valor sempre que forem usadas para comprar algo e estabelecido um preço. Para isso, funciona a lei da oferta e da procura na sua forma mais pura: se houver mais gente a comprar o preço sobe, se houver mais gente a vender o preço desce.
Mas para manter este valor é exigido manter a escassez desse activo, uma quantidade limite, acessível ao mercado. Esse limite é mantido pela forma como a Bitcoin e outras criptomoedas foram programadas. No caso da Bitcoin, existe uma quantidade máxima de 21 milhões de moedas. Estas bitcoin são libertadas na rede de cada vez que é criado um bloco, sendo que parte delas ficam para o minerador como a sua recompensa. Esta recompensa está programada para ser cortada a metade a cada 210 000 blocos – cerca de 4 anos considerando os 10 minutos por bloco – esse evento é chamado de halving. No dia 28 de Novembro de 2012, aconteceu o primeiro halving de 50 para 25 bitcoins, e a cada 4 anos acontece uma nova redução. Desta forma, Satoshi criou uma recompensa atractiva no início do sistema para aliciar novos seguidores que mantivessem a rede saudável. Sabia também que se a sua criação se tornasse um sucesso, o seu valor iria subir com o tempo e, atribuindo uma quantidade menor de bitcoin, a mineração manter-se-ia interessante financeiramente. Além disso, o crescente número de transacções criaria uma nova fonte de receita para os mineradores.

Enquanto as moedas corrente são afectadas pela inflação – o que significa que a cada ano que passa a moeda passa a valer menos – a Bitcoin atingirá um máximo matemático e programado de 21 milhões, o que conjugado com o aumento da procura pela moeda fará com que cada moeda passe a valer mais com o passar dos anos – é por isso que é mencionada como uma moeda deflacionária. É uma moeda que terá mais valor no futuro do que no momento em que é adquirida.
É assim que a cadeia de blocos e a Bitcoin estão a romper com a maneira como lidamos com o dinheiro, tornando as formas e moedas actuais obsoletas e criando novas soluções melhoradas e com muitas e claras vantagens para os utilizadores. A partir do próximo artigo vamos explorar outras áreas onde a cadeia de blocos poderá ter efeitos tão profundos como no mundo financeiro. Para isso estudaremos o Ethereum e os contractos inteligentes.
2 replies on “A última evolução do dinheiro”
[…] armazenarem valor para o futuro e servirem como unidade para valorizar outros bens ou activos. Como já vimos anteriormente, a Bitcoin desempenha todas as 3 funções sem ter essa confiança imposta por alguém, mas sim […]
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[…] referi no artigo, A última evolução do dinheiro, a Bitcoin é a mais recente tecnologia a servir a função de dinheiro. Utiliza as possibilidades […]
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