Até agora falámos de Bitcoin como criptomoeda, mas este “criptomundo” criou toda uma nova classe de activos. Segundo Chris Burniske e Jack Tatar, no seu livro Criptoactivos: o guia do investidor inovador para a Bitcoin e além, podemos dividir essa classe em 3 subclasses:
- Criptomoedas – têm as 3 funções de uma moeda: servir como meio de troca, como reserva de valor e como unidade de conta. Apesar de a representação física dessa moeda muitas vezes não ter qualquer valor intrínseco, esse valor é-lhe atribuído pela confiança imposta por um governo e um banco central. É isso que permite que as notas de papel sejam utilizadas para comprar bens e serviços, armazenarem valor para o futuro e servirem como unidade para valorizar outros bens ou activos. Como já vimos anteriormente, a Bitcoin desempenha todas as 3 funções sem ter essa confiança imposta por alguém, mas sim pela matemática.
- Criptomercadorias – as mercadorias são a matéria-prima que é usada e transformada pela indústria para criar os produtos finais que são depois adquiridos pelos utilizadores. Num mundo cada vez mais digital, também estas se estão a digitalizar e faz sentido falar em mercadorias digitais como capacidade computacional ou largura de banda. As criptomercadorias são as mercadorias digitais disponibilizadas por uma cadeia de blocos.
- Criptotokens – são os produtos finais de consumo que podem existir na forma de multimédia, redes sociais, jogos ou outros que são também provisionados através de uma cadeia de blocos.
A mais relevante das criptomercadorias é o Ethereum – um computador mundial e descentralizado no qual podem ser construídas aplicações globalmente acessíveis e incensuráveis.
Criado em 2013 por Vitalik Buterin, na altura com apenas 19 anos, o Ethereum é o materializar de uma visão para criar uma cadeia de blocos que fosse mais do que apenas dinheiro. Buterin, percebeu que se conseguisse marcar um endereço na cadeia de blocos da Bitcoin com mais informação do que apenas a quantidade de bitcoin existente nesse endereço podiam ser transaccionados qualquer tipo de informação, como, por exemplo, a posse de um bem. Neste caso, o envio dessas bitcoin significaria também a transacção desse bem, provando assim que se poderia transmitir qualquer tipo de valor através da cadeia de blocos da Bitcoin.
No entanto, criar este sistema baseado em Bitcoin não é tarefa fácil. O sistema não foi criado com a flexibilidade para adicionar identificadores para endereços e tem capacidade limitada para a criação de diferentes tipos de transacção. Satoshi criou a Bitcoin apenas com o objectivo de se tornar numa moeda descentralizada e impedir esta multiplicação de transacções permitia aumentar a segurança e a escalabidade – a capacidade para crescer – da rede.
Mas, para Buterin, isto não era suficiente. Ele queria um sistema flexível que se comportasse mais como um computador e menos como uma calculadora para quantidades de bitcoins. Neste novo sistema poderia ir além da moeda e criar protocolos para armazenamento descentralizado de ficheiros, computação descentralizada, mercados preditivos descentralizados e muitas outras aplicações.
A primeira forma que usou para se diferenciar da Bitcoin foi usar um nome sem qualquer “coin” – moeda – com o efeito duplo de afastar a ideia de que era apenas uma moeda. Se a cadeia de blocos da Bitcoin é utilizada principalmente para trocar valor monetário entre pessoas, a cadeia de blocos do Ethereum pode ser usada para trocar informação entre programas. Isto é possível por se ter criado um computador mundial descentralizado com uma linguagem de programação Turing-completa, ou seja, que pode ser usado para calcular qualquer sequência de regras lógicas bem definidas, qualquer programa de software.
Este computador é chamado de Ethereum Virtual Machine (EVM)- a máquina virtual do Ethereum, que é simplesmente um computador simulado, partilhado, global e que pode ser usado por mais que um utilizador de cada vez. Tal como na cadeia de blocos de Bitcoin toda a gente pode ver as transacções que foram feitas, na cadeia de blocos do Ethereum toda a gente pode ver que programas estão a ser corridos.
Estes programas são conhecidos por contractos inteligentes. O conceito foi desenvolvido em 1996 por Nick Szabo, mas só Buterin e a sua equipa em 2013 conseguiram criar uma plataforma para executar contractos inteligentes de forma descentralizada e que conseguisse atenção relevante. Como referido, são programas e não documentos legais. Chamamos-lhes contractos porque têm a capacidade de estabelecer transacções condicionais, ou seja, caso se verifique uma condição predeterminada esse programa irá alterar o estado de uma variável numa cadeia de blocos. Em termos lógicos, “SE uma condição se verificar, ENTÃO uma acção é executada”.
Todos os contractos inteligentes começam com uma transacção. Alguém faz uma transacção que depois é recebida pelo contracto inteligente. A transacção é o input para o programa e o que faz despoletar o mesmo. Essa transacção e o código do contracto são executados na máquina virtual e verificados por cada um dos nós. Se a transacção for validada por todos os nós é então adicionado ao próximo bloco na cadeia de blocos do Ethereum. Por ser uma rede distribuída esses nós – os computadores que estão ligados ao EVM – estão espalhados pelo mundo e podem ser na ordem dos milhares, conferindo assim confiança à rede.

Um bom exemplo para o uso dos contractos inteligentes são as seguradoras. Nesta indústria, as empresas pagam aos seus clientes caso sejam cumpridas certas condições. Tomando o exemplo de um voo cancelado: SE o cliente perder o voo, e SE a culpa for da companhia aérea ENTÃO a companhia tem que pagar o custo do voo ao cliente. Claramente, este é um exemplo simples, mas as condições podem ser aumentadas para cobrir qualquer tipo de contracto, eliminando a necessidade de existir uma seguradora. A companhia aérea poderia ter este contracto numa cadeia de blocos e o contracto seria automaticamente activado se se verificasse essa condição.
Tal como na Bitcoin, os mineradores recebem bitcoins por manter a rede a funcionar, também no Ethereum, existem mineradores que são recompensados em ether se funcionarem como nós da rede e a mantiverem online. Este ether é o activo nativo da rede do Ethereum.
O Ethereum tornou-se uma plataforma onde podem ser desenvolvidas várias aplicações utilizando as mais-valias da cadeia de blocos – descentralização, imutabilidade e transparência. Essas aplicações têm finalidades tão diferentes como: empréstimos financeiros através da criptomoeda DAI ou um jogo em que se cria e mantém avatares coleccionavéis de gatos – Cryptokitties – que já foram vendidos em leilões por quantias semelhantes a 100.000 dólares.
6 replies on “Ethereum – o computador global”
[…] Durante o ano de 2013, Buterin viajou para Israel, Londres, Amesterdão, San Francisco, Los Angeles e Las Vegas para se encontrar com programadores que tinha conhecido online. Muitos deles estavam a tentar criar uma versão mais poderosa da Bitcoin. No entanto, a forma como o estavam a fazer era muito difícil e pouco eficaz. A ideia mais comum era adicionar ao código já existente um novo nível de complexidade. Mas Satoshi tinha desenhado o protocolo de forma a limitar a complexidade das transacções, para ev… […]
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[…] uma entidade central que possa fazer alterações aos registos. Esta entidade é substituída por contractos inteligentes que fazem toda a gestão da aplicação, garantindo que o sistema é autónomo. Os contractos […]
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[…] por criar as suas versões de dinheiro digital privado. Destacam-se Nick Szabo o inventor dos contratos inteligentes, ou Zooko Wilcox que viria a criar uma criptomoeda […]
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[…] que pudesse recriar isto online. Foi assim, que chegou à criação pela qual é mais conhecido: os contratos inteligentes. Seriam estes protocolos que estabeleceriam e verificariam a execução de um contrato sem a […]
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[…] centrais ou outra entidade central.. Serão estes que definirão todas as regras da blockchain. Os contratos inteligentes ou DApps que queiram utilizar aquela rede terão que seguir essas mesmas regras. Ou seja, além de […]
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[…] terás que pagar uma taxa para a activação do contrato inteligente – um pedaço de código na rede Ethereum – que cria o NFT. A rede Ethereum funciona […]
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