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Cypherpunks e a Pré-História da Bitcoin – Parte 1

Nos anos 1990, existia um grupo de entusiastas pela criptografia que se reuniam para discutir online e presencialmente na Califórnia, sobre o futuro da Internet e de como a poderiam tornar privada e segura. Auto-intitulavam-se de Cypherpunks e o seu fórum online era a Cryptography Mailing List – o primeiro sítio a ver o white paper da Bitcoin por Satoshi.

Cypherpunks é um trocadilho com o movimento cyberpunk incluindo cypher, que, em inglês, significa cifras ou códigos. Mas antes de explorarmos os nomes mais sonantes deste grupo, vamos dar um passo atrás e conhecer o homem que inspirou este movimento:  David Chaum.

dChaum

Formou-se na Universidade de Berkeley, na Califórnia onde viria a dar aulas mais tarde. E foi nesta instituição que logo no princípio dos anos ’80, Chaum, hoje com 64 ou 65 anos (prefere manter esta informação privada), se preocupava em manter a comunicação na Internet privada. Publicou um paper em 1981, sobre comunicação secreta em redes públicas, endereços de retorno e pseudónimos digitais. Trabalho este que se tornaria numa das bases para a comunicação encriptada na Internet e de tecnologias como o browser privado Tor.

Mas iria mais além e desenhar o primeiro conceito de dinheiro digital privado. Chaum trabalha desenvolvendo tecnologias, sempre com a privacidade como objectivo último. Numa altura em que a Internet ainda não estava espalhada pelo mundo e pouca gente lhe tinha acesso, Chaum, e mais tarde os Cypherpunks, imaginavam uma rede em que teríamos que pagar uma pequena quantia para aceder a um site. Por isso, existia a necessidade de criar um dinheiro digital que funcionasse de forma fácil e nativa na Internet.

Hoje tomamos a Internet como gratuita, mas tudo tem um preço. Essa aparente gratuitidade (?) vem com o custo de entregarmos os nossos dados às empresas que gerem o espaço onde circulamos. Chaum e os Cypherpunks criaram formas de dinheiro que nos permitiriam vaguear na Internet de forma livre e sem revelarmos a nossa identidade.

Numa altura em que existiam poucas coisas online, Chaum já imaginava o comércio online e por isso previu a necessidade de um dinheiro que operasse de forma natural nesse meio. Pôs mãos à obra e criou efectivamente o primeiro sistema de pagamentos anónimos para a Internet.

Assinaturas Cegas e o eCash

Chaum criou um sistema que permitia a alguém assinar dados sem que verificasse a sua origem ou sequer verificasse essa informação. Qual seria a utilidade deste serviço?

Imaginemos que o Manuel quer pagar algo à Maria. Para o fazer, o Manuel faz um levantamento de dinheiro digital do seu banco. Note-se que o banco aqui, é um banco tradicional, uma instituição externa que serve como entidade de confiança. Esse dinheiro digital é levantado em forma de “notas digitais” com números de série únicos criados pelo Manuel. Por segurança, baralha esses números de série e envia-los ao banco para que este assine, confirmando que o Manuel tem aquela quantia e o direito de a retirar da sua conta. O banco irá descontar essa quantia na conta do Manuel.

De seguida, passa as notas para a Maria de forma a realizar o pagamento.

Ao receber as notas digitais, a Maria envia-las para o banco de forma a que sejam verificadas e a quantia depositada na sua conta. O banco confirma que têm a sua assinatura e que o número de série não foi já registado para evitar que o mesmo dinheiro seja gasto duas vezes.

Só nesta altura o banco conseguirá ver os números de série não baralhados. É aqui, que a “assinatura cega” se torna relevante. O banco tinha assinado as notas sem saber o número de série. Desta forma ao receber as notas para verificação não sabe a origem delas, garantindo o anonimato do Manuel.

AssinaturasDigitais

Chaum chamou a esta forma de dinheiro digital eCash, por ser “electronic cash” – numerário (dinheiro vivo) electrónico. Este tal como, o numerário físico permite manter a privacidade dos intervenientes e das suas transacções.

De notar que, esta aplicação não elimina a necessidade de intermediários. Continua a ser necessário uma entidade externa que valide a origem do dinheiro transaccionado e, por isso, não libertava os utilizadores dos bancos.

DigiCash e a aplicação prática do eCash

Depois de ter explorado a melhor forma de criar esse dinheiro electrónico, Chaum criou uma empresa para implementar as suas ideias e levá-las até aos utilizadores. Assim, em 1990, fundou a DigiCash em Amesterdão, onde vivia na altura.

Para contextualizar, nesta época as empresas tecnológicas na Internet estavam a começar a ganhar notoriedade, especialmente pela mão do motor de pesquisa Yahoo! ou do browser Netscape. Esta indústria teria um crescimento enorme durante essa década, o que levaria à criação de inúmeras empresas e serviços no ramo.

A DigiCash queria tornar-se a empresa responsável pelo dinheiro nesse mundo novo e o interesse à sua volta começou a crescer. Em 1994, começaram os testes vendendo licenças da sua tecnologia a bancos. O primeiro foi um banco norte-americano do estado de St. Louis – o Mark Twain Bank. Mais tarde, alguns dos maiores bancos europeus começaram a interessar-se pela tecnologia e adquiriram a licença. Nomes como Deutsche Bank, Credit Suisse ou Bank Austria fazem parte da lista de instituições que chegaram a utilizar o sistema.

No entanto, a adaptação do eCash poderia ter sido global se tivessem sido realizados alguns dos negócios que Chaum rejeitou. A oferta mais sonante talvez tenha sido de Bill Gates, para incluir o eCash no Windows 95. Chaum recusou os 100 milhões de dólares oferecidos pela Microsoft, pedindo 2 dólares por cada cópia do Windows 95 vendida. O negócio caiu. A Netscape, que tinha o browser mais utilizado na altura, também viu a sua proposta rejeitada. A Visa, o gigante dos sistemas de pagamentos, terá mais tarde oferecido 40 milhões de dólares. A contraproposta de 75 milhões foi recusada.

Estas ofertas teriam colocado o eCash directamente na frente dos utilizadores e isso teria sido fantástico para a sua adopção. No entanto, devido à má gestão de Chaum, que seria afastado do cargo de CEO, a DigiCash acabaria por declarar falência em 1999.

No entanto, o seu legado continuaria vivo na mente de alguns dos seus colaboradores que acabaram por criar as suas versões de dinheiro digital privado. Destacam-se Nick Szabo o inventor dos contratos inteligentes, ou Zooko Wilcox que viria a criar uma criptomoeda Zcash.

3 replies on “Cypherpunks e a Pré-História da Bitcoin – Parte 1”

[…] No último artigo sobre a Pré-História da Bitcoin e as criações que tornaram possível a sua invenção, falamos de David Chaum e como ele criou uma forma de dinheiro digital privada que pudesse ser utilizada na internet. No entanto, o eCash era ainda centralizado pois necessitava de uma entidade confiável que validasse cada “nota digital”. […]

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