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Para que Serve o Dinheiro?

Este artigo é o primeiro de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

Como referi no artigo, A última evolução do dinheiro, a Bitcoin é a mais recente tecnologia a servir a função de dinheiro. Utiliza as possibilidades tecnológicas da era digital para resolver um problema tão antigo como a humanidade: como mover valor através do espaço e do tempo. Para entendermos a Bitcoin, devemos entender primeiro o dinheiro e a sua história.

A forma mais simples que as pessoas têm de trocar valor é a troca directa de bens valiosos entre si – a permuta. No entanto, este sistema só é práctico em comunidades pequenas e com poucos bens a serem trocados. Uma economia maior e mais sofisticada traz a oportunidade para os indivíduos se especializarem na produção de mais bens e os trocarem com mais pessoas. À medida que a economia cresce as relações interpessoais diminuem, o que dificulta a ocorrência destas permutas.

Além da diminuição das relações, surge também o problema da coincidência de necessidades – aquilo que queres adquirir é produzido por alguém que não quer o que tens para vender. Além do bem ou serviço em si, podem ser considerados mais 3 dimensões para este problema:

  • coincidência em escala – o bem que queres adquirir pode não ser igual em valor ao que tens para oferecer e dividir um deles pode não ser executável.
  • coincidência em tempo – o bem que queres vender pode ser perecível e o que queres adquirir mais resistente à passagem do tempo.
  • coincidência em localização – o bem que queres trocar pode não estar na localização que quem quer comprar deseja.

A única alternativa é fazer trocas indirectas. Encontrar um bem intermédio que a outra pessoa queira para que ela aceite trocar por aquilo que queres. Esse bem é um meio de troca. Qualquer bem pode ser um meio de troca, mas quanto maior for a economia mais díficil se torna a procura constante por bens que tenham esse propósito. Naturalmente, surge uma solução mais eficiente: encontrar um meio de troca único (ou um grupo pequeno) pelo qual toda a gente aceite trocar os seus bens. A esse bem chama-se dinheiro e esta é a sua função principal.

Ser um meio de troca significa que as pessoas o adquirem não para consumir nem para ser empregue na produção de outros bens, mas precisamente para o trocar por outro bens.

Segundo o fundador da Escola Austríaca de Economia, Carl Menger, uma propriedade chave para que um bem seja escolhido como dinheiro é a facilidade com que se pode vender um bem logo que o seu proprietário o deseje, com a menor perda do seu valor – a isto se chama liquidez.

As comunidades usaram ou usam materiais como ouro, prata, cobre, conchas, sal, gado ou até cigarros como meio de troca, dependendo da época e daquilo que têm ao seu dispor. Não existem escolhas certas ou erradas pois cada um valoriza bens diferentes de formas diferentes. Ainda assim, existem consequências para cada escolha.

Como vimos antes, o dinheiro deve permitir coincidências entre escala, localização e tempo. Podemos dizer que um bem é líquido em várias escalas se se puder dividir em pequenas quantias ou agrupar para valores maiores permitindo trocar bens de diversos valores. Consideramos um bem líquido através de localização se se puder transportar entre espaços geográficos. Por isso, as formas de dinheiro, tradicionalmente, têm um alto valor por unidade de peso.

A liquidez de um bem através do tempo pode ser descrita como a capacidade de transportar valor para o futuro e permitir manter a riqueza naquela forma. Esta é a segunda função do dinheiro: reserva de valor. Para cumprir esta função o bem tem que ser capaz de resistir à deterioração do tempo como corrosão ou apodrecimento, mantendo a sua integridade. Para que um bem mantenha o seu valor também é necessário que a oferta desse bem não aumente drasticamente. A dificuldade com que se produzem unidades monetárias determina a força do dinheiro: uma forma de dinheiro cuja oferta pode ser aumentada dificilmente diz-se forte. Pelo contrário, considera-se como fraca se for possível criar oferta sem grandes obstáculos.

Podemos entender a força do dinheiro, entendendo duas quantidades dessa forma de dinheiro: o stock, a quantia já existente, e o flow, a quantidade produzida no próximo período de tempo. Quanto maior for o flow para um determinado stock mais esse dinheiro perderá valor, significa que a oferta total está a ser aumentada.

No seu livro, Saifedean propõe a armadilha do dinheiro fraco: tudo o que for usado como reserva de valor verá a sua oferta aumentada, e todos os bens cuja oferta possa ser facilmente aumentada irão destruir a riqueza daqueles que os usam como reserva de valor. Por isso, é necessário um mecanismo para restringir o flow desse dinheiro para o mercado para que o bem mantenha o seu valor e possa ser usado como dinheiro.

Além do rácio stock-to-flow, outro aspeto importante para a liquidez é a aceitabilidade. Quanto mais pessoas virem valor nesse bem, maior pode ser a economia que ele serve. Em ambientes onde acontecem relações directas é natural que surjam alguns padrões que dominam todo o sistema. Quanto maior for a rede mais incentivos existem para nos juntarmos a elas. Um bom exemplo disso são as redes sociais onde o Facebook domina, apesar de existirem várias alternativas.

À medida que esta aceitabilidade cresce e domina toda a comunidade, surge a terceira função do dinheiro, em que todos os preços são denominados naquela moeda – a unidade de conta. Usar o dinheiro como métrica de riqueza permite que sejam realizadas operações económicas cada vez mais complexas e com um horizonte temporal mais alargado. Desta forma os produtores podem investir em meios que produzirão bens de consumo ao fim de mais tempo mas com maior qualidade e em maior quantidade.

Um bom exemplo desta evolução são as pescas. Nas pequenas economias primitivas, os pescadores usavam apenas algumas canas ou redes e o processo não durava mais que algumas horas. A especialização da economia permite que os pescadores utilizem barcos que demoram anos a ser construídos e trazem peixe que não estavam ao alcance e, mesmo assim, tornam o processo mais produtivo.

Isto não seria possível se o dinheiro não fizesse o papel de meio de troca para permitir especialização; reserva de valor para aumentar o horizonte temporal e incentivar ao investimento em vez do consumo; e unidade de conta permitindo cálculos de lucros ou perdas.

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