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O Dinheiro nas Mãos do Governo

Este artigo faz parte de uma série onde estudamos o livro “O Padrão Bitcoin” por Saifedean Ammous. É, por isso, amplamente baseado nessa obra e nas suas ideias.

As moedas que são controladas por um governo são conhecidas como moedas fiduciárias. O governo decreta que aquela é a moeda a ser usada no território que controla.

Fiduciário significa algo que revela confiança. Em inglês, é utilizada a palavra latina fiat que significa por decreto ou ordem. Para as duas interpretações, podemos assumir que estas moedas são utilizadas porque existe uma autoridade que decidiu que todos os que lhes obedecem devem utilizar aquela moeda.

No entanto, existem dois aspectos importantes que devemos ter em conta ao referir estas moedas. O primeiro é que, historicamente, estas moedas só conseguiram ganhar liquidez num mercado depois de poderem ser trocadas por ouro. Até hoje não houve um governo que conseguisse impor a sua moeda sem que antes essa pudesse ser trocada por ouro ou prata. O segundo aspecto é que existe uma grande diferença entre dinheiro do governo que pode ser trocado por ouro e dinheiro do governo que não pode ser trocado. Enquanto que no primeiro, o governo apenas tem a responsabilidade de cunhar moedas idênticas e não tem controlo sobre a quantidade de dinheiro em circulação, no segundo o governo pode controlar a quantidade de dinheiro em circulação conforme lhe for mais benéfico.

Nacionalismo Monetário

No artigo anterior, von Mises enunciava alguns inimigos do padrão-ouro que acabaram por levar a sua proposta avante com consequências desastrosas para a Europa e o mundo. Até hoje, a maior diferença encontrada entre a 1ª Guerra Mundial e as guerras que lhe antecederam não foram geopolíticas nem estratégicas mas sim monetárias. Como os países europeus não estavam constrangidos pelo padrão ouro, podiam inflaccionar a sua moeda a seu bel-prazer para financiar a guerra. Durante os 5 anos que durou a guerra, as moedas dos países que estavam envolvidos perderam entre 10% e 68% do seu valor. Além dos efeitos devastadores dos confrontos, as pessoas viram as suas poupanças, guardadas naquelas moedas, muitíssimo diminuídas.

No final da Grande Guerra, os EUA e o Reino Unido tentaram evitar a saída do ouro dos seus países. Para isso, desvalorizaram as suas moedas e começaram a inflar uma bolha que iria rebentar em 1929, na depressão mais longa da História. Para amenizar o efeito da crise, o governo dos EUA, criou as políticas intervencionistas que tinham por objectivo aumentar a despesa pública do Estado, expandir o crédito através da Reserva Federal, manter os salários elevados e controlar dos preços de bens de consumo. Estas medidas ficaram reunidas num pacote que ficou conhecido como o New Deal. As manipulações de preços e salários resultaram na situação escabrosa de queimar produtos agrícolas para manter o preço alto! Enquanto havia pessoas a passar fome e desesperadas por trabalho, os produtores não conseguiam contratar essas pessoas porque não podiam suportar os salários e aqueles que conseguiam produzir alguma coisa tinham que queimar parte desses produtos para manter o preço alto.

Estas políticas que foram incutidas na Economia ocidental e ensinada nas universidades baseiam-se na noção fundamental que o estado da economia é determinado pelo somatório das despesas daquele país. Como aumentar os gastos é tudo o que interessa os governos devem fazer tudo o que podem para incentivar os cidadãos a aumentar as suas despesas. Por isso, as soluções mais usadas, ainda hoje, são a desvalorização da moeda para evitar que as pessoas poupem o seu dinheiro e aumentar a despesa pública.

À medida que as principais economias europeias abandonavam o padrão-ouro, por imprimirem moeda desenfreadamente, o comércio entre esses países foi dificultado pela existência de moedas diferentes. Voltou a surgir o problema da coincidência de necessidades – a moeda que uma pessoa tinha para pagar não era a que a do outro lado da fronteira queria receber. “Se não puderem cair as amarras do comércio, as bombas cairão do céu.” – profetizou Otto Mallery.

Segunda Guerra Mundial e Bretton Woods

As bombas voltaram a cair e eram agora muito mais sofisticadas. A economia Keynesiana não distingue entre despesa para desenvolver armas ou despesa para alimentar pessoas. Esta falácia fez com que os governos aumentassem a despesa para se armarem com um arsenal mais sofisticado que acabariam por usar. Os economistas que seguem a escola de Keynes acreditam que foi a guerra que causou a recuperação económica depois da Grande Depressão. É fácil perceber que para as populações dos países onde se travava a guerra pouco interessava uma recuperação económica se não a podiam desfrutar.

Já no final da 2ª Grande Guerra, Paul Samuelson – o homem que escreveu o manual de Economia mais usado nas universidades e que seguia Keynes – previu que a economia colapsaria devido à diminuição acentuada na despesa pública. Entre 1944 e 1948, a despesa do governo norte-americano diminuiu 75% e foram removidos a maior parte dos controlos de preços. Ao contrário do previsto, a economia daquele país cresceu significativamente e conseguiu absorver no mercado de trabalho todos os homens que voltaram da guerra.

John Maynard Keynes, foi o economista britânico que convenceu os governos com esta mensagem que lhes era muito apelativa: se controlarem o dinheiro podem controlar a economia.

Em julho de 1944, quando acabou a 2ª Guerra Mundial, o governo americano convocou os seus aliados para uma conferência em Bretton Woods onde estabeleceriam o dólar como a moeda de reserva mundial. Para fazer isto acontecer, os EUA comprariam ouro de outros países em dólares. As moedas de outros países teriam uma taxa de câmbio fixa para o dólar, o dólar por sua vez teria uma taxa fixa de conversão para o ouro. Assim, a ligação entre o ouro e as moedas dos outros países passaria pelo dólar.

Para gerir todo este sistema de câmbios, foram criadas duas instituições: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. A sua função era a de controlar as taxas de câmbio, a emissão de moeda e coordenar a estabilidade entre os bancos centrais. O que os governos tentaram fazer foi controlar a economia e as trocas entre milhões de pessoas. Sob o padrão ouro, este equílibrio era alcançado naturalmente pelo mercado. Naturalmente também, surgiram desequílibrios entre países pois uma entidade central não consegue monitorizar tudo o que se passa na economia mundial e ajustar o comércio à velocidade necessária.

Este sistema teve uma curta vida e o seu fim chegou em 1971. A França e a Alemanha tentaram repatriar o seu ouro, por perceberem que o seu papel-moeda tinha cada vez menos poder de compra. Em resposta, o presidente norte-americano Nixon, acabou com a convertibilidade do dólar para ouro. Desde aí o valor do ouro, passou de $1,25 para mais de $58 por grama. Ao mesmo tempo, iniciou um mercado gigantesco de câmbio, resultado das ineficiências por não existir uma base comum para todas as moedas – o Forex.

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